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– A arte não é sobre glamour, a arte é sobre
trabalho, trabalho duro, não é sobre sentar aqui nessa cadeirinha, é sobre
vestir uma roupa rústica e amarela, carregar uma pequena caçamba amarela, e
varrer e varrer uma rua por muito tempo, e varrer de novo debaixo de enchente,
rajada de vento, e nunca parar de varrer; daí um belo dia, eu chego até o final
da rua e vejo a rua limpíssima, daí passa uma mulher, com um vestido branco
lindíssimo, com um sapato de salto belíssimo, eu vou até ela, a cutuco, e digo
– Está vendo essa rua limpíssima? Fui eu que
varri!
Não! Não! Não é para ela, não é para os outros,
é para mim! Antes de me perguntar se valeu a pena, tente me perguntar para quê?
Para que me raspei tanto nesse esforço? Mesmo que eu tenha gostado de observar
a rua tão limpa apenas por alguns minutos? É que mesmo assim ainda se morre,
posso morrer amanhã ou daqui há poucos anos, as condições de vida podem piorar,
e daquela rua ninguém vai mais lembrar, e meus olhos vão chorar
v
– No primeiro dia na minha casa nova, pedi para
um dos moradores, um louro de mais de 1,90m para conversar; eu o interrompi no
corredor e disse começando a começando com pausas quebradas, '"É...",
"Ã...",
– Preciso falar com você
– Pode falar, aconteceu coisa?
– Não, é que, se você não se incomodar, eu
queria te pedir para te dar o telefone da minha mãe, se você não se importar
– Claro
Ele tira o celular do bolso, e eu dou, falo o
número e ele salva o número errado; ele dá um sorriso corporativo; enfia o
celular no bolso; a vida como ela é, coisa nenhuma, a cozinha é pequena demais
para nós dois, saí do banho e ele já estava atrás da porta como se já tivesse
esperado três horas, todas as vezes em que nos cruzávamos, ele sempre olhava só
para frente, talvez fosse modelo, e se olha pra frente nunca me nota, visto que
tenho 1,75m, a minha inexistência servia para treinar a inexistência de todos
os outros
O que temos aqui é a anticrônica; o garoto do
sul, tarde naquele mesmo dia, assistia televisão enquanto bebia cerveja
artesanal e conversava consigo mesmo
– Nem conheço essa mulher, como vou dar meu
celular pra ela? Eu posso estar sendo o pior dos escrotos, mas eu não vou virar
babá desse cara; mais alguns goles e ele pensa
– E se algo de algo mesmo acontecer? Vou me perdoar
como?
No outro quarto, o filho da mamãe destilava
ódio;
– Nem quis me dar o telefone dele, nem deve ter
anotado o da minha mãe, eu sou um lixo mesmo! Ele deve ter nojo de mim, mesmo
sem eu ter feito nada pra ele, só existir do jeito que eu existo, já é nojento;
e assim, uma lágrima que teimava em não cair, desceu
– Desde então, o silêncio pairou naquela casa,
o altíssimo garoto se arrependia cada vez mais, mas era tímido demais para
consertar o que fez, Ygo, sentiria aquela lepra para todo o sempre; sendo
assim, não haveria, nem nunca haverá avença
O pai: já faz mais de mês que não alugam aquele
terceiro quarto
A mãe: seria tão bom que alguém entrasse com
boa energia e todos passassem a se dar bem
O pai: ou então ficariam piores
A mãe: uma mulher seria tão bom naquela casa
O pai: e por que uma mulher?
A mãe: porque mulheres são mães, porque
mulheres criam, porque mulheres harmonizam
O pai: mulheres também matam
– Tá, logo chega dois meses e você vai ter
dinheiro, a mesma quantia para publicar o livro novo em Portugal, lhe parece
muito mais tenra
– A vida que não é tenra, Eduardo
– Você tem tentando há anos reunir essa verba, teve
vários empregos fixos para agora dar um coice? Não faz sentido, não é
semântico, pode não tentar mais uma vez de novo?
– Tentar, tentar, tentar, tentar e morrer, é
como a vida se comporta
– Pode ser fácil, mas quando chega a hora,
muita gente desiste... não teve paciência
– Dois meses de empresa depois, Ygo se
encontrou com o traficante para a entrega da encomenda, ele já o esperava de
moto na frente do prédio da empresa; o vi todo galante em pé ao lado da moto
sem a viseira, me deu um capacete
– Vai acertar agora?
– Sim, te passo agora
Ele olha para o celular e diz
– Preparado?
– Preparadíssimo!
Os dois chegam á uma região de mata, o
traficante ensina Ygo o básico sobre como atirar com sua nova arma, diz ao
colega
– Acho que já está bom, não preciso mais do que
isso
– Tem certeza?
– Absoluta!
– Tá certo, se precisar de outra aula, só me
chamar
– Tá certo, Emerson, muito o obrigado
Ygo, no caminho para casa não sabia ainda se
estava feliz ou triste por estar vivendo o último dia de sua vida; é claro que
tudo foi planejado para que estivesse feliz, mas daí um talvez ecoa, talvez
algo bom está esperando por mim muito em breve, toda tentativa de suicídio dá
medo, o problema é que dessa vez não vai falhar, dessa vez é fim da linha;
Ygo chega em casa, e lá está Bob na cozinha,
Ygo passa por ele como se ele é que não existisse, larga a mochila no chão, se
senta na cama, começa a tocar na arma, tocá-la como e fosse um objeto de
desejo; Bob achou estranho que Ygo não foi tomar banho, Ygo havia pesquisado
que a melhor forma de se suicidar com uma arma é dar um tiro no céu da boca,
mas estava lhe faltando coragem para enfiar a arma na boca; Bob foi ao
banheiro, que porta com porta com o quarto de Ygo, e foi na mesma hora em que
Ygo conferia as balas e esse é um som característico do revólver, Bob foi e
voltou ao banheiro rapidamente e a arma disparou; Bob entrou no quarto, viu Ygo
recuperando a arma do chão
– O que aconteceu?
– Não foi nada! – disse ríspido
– Como nada? Você não pode ficar com uma arma
disparando aqui!
– Cuida da sua vida!
– Me dá essa arma! – ele dava um passo à frente
– Sai daqui!
– Me dá essa arma! – ele dava outro passo à
frente
– Sai daqui!
– Me dá essa arma! – ele dava outro passo à
frente
A cada diálogo o tom aumentava, e quando Bob
estava prestes a tomar-lhe a arma, Ygo atirou, no peito, três vezes; ao vê-lo
cair no chão, na certeza de sua morte, ficou maravilhado, olhou para aquela
bela cena e pensou “Eu quero ir para o mesmo lugar que ele”; não titubeou,
inseriu a arma no céu da boca e atirou, sem hesitação
do I carry on?
v
– Sim, eu definitivamente prefiro primeiro a
diversão e depois a obrigação; minto, eu não gosto da obrigação, mas eu sucumbo
à obrigação, por medo, por viver com muito medo do provável eterno refugo ao
suicídio, e acabar na maior miséria; por isso hoje, mesmo acordando tão triste,
mesmo porque existem coisas que me deixam tristes além do estudo, um estudo
forçado, o que me enfastio, que me cansa já quando me sento para cansar, pelo
menos inventaram a lógica, que é algo que gosto, resolvi às cinco questões
diárias que homens confiáveis que mandaram, tenho certeza que acertei quatro, a
quinta só chutei porque não me ensinaram aquela matérias, mas ainda posso
acertar com o chute, e vou estudar mais logo de noite para acertar os noventa
por cento que acho digno, já que as empresas privadas me veem como algo que
chegam à assustar, ou talvez eu é que me assusto com a forma deles ao se
apoucar, tal relação trabalhista não funciona assim, desse motivo, me emparedei
à prestar um concurso público, o qual teste, provavelmente se dará neste
novembro, eu não serei feliz depois que passar, não serei feliz depois que for
empossado, mas não morrerei na maior miséria, por isso ontem à noite, o medo da
miséria ia me mover a estudar com afinco, como se o medo já não movesse a minha
vida
v
– Sonhei, contando à minha mãe, mas contei;
estávamos em um grande evento de dramaturgia, muitas, muitas pessoas famosas,
não sei o que eu estava fazendo lá, minha mãe talvez, no principal local de
confraternização, de troca, era um lugar bem grande e, pasmem, a maioria das
pessoas se sentavam no chão; a coisa mais parecida que eu tinha visto com
aquilo em arte foi na FLIP, estranhamente, algumas mulheres começaram a passar
e olhar para mim, eu ainda era bonito, mas não para ser flertado daquele jeito,
uma eu não sabia o nome, depois apareceu a Aline Midley, olhou misteriosamente
ao passar por mim, mas era um olhar frágil, ela simplesmente se sentou,
encostou no meu ombro e começou a chorar, não fiz nada, apenas a deixei ter
aquele momento; peguei um livro, tinha imagem e textos, eu folheava o livro para
ela ver, era um livro bem grande, em uma página eu comentei
– Essa página só tem imagens... espere... não,
tem texto também – disse com o meu "defeito de voz"
Ela levantou e foi embora, mas eu já estava
acostumado, para uma mulher eu não sirvo para nada, afinal, um homem gay não é
um homem, é uma imitação de homem
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– A vida que eu conhecia acabou, a que estou
vivendo agora eu não sei o que é
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– Eu ia dizer que meu relógio biológico voltou
ao normal, e eu acordei às dez horas, mas me deu uma de Thom Yorque e
quero/decidi rejeitar tudo que é fácil; assim, nasceu "Ok Computer"
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– O pior de perder o emprego, é perceber que
você também não tem casa
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– Apaga a luz, desliga a televisão, assim a
vida se esconde, fica menos pesada, vá calcular o peso da escada, o perímetro e
a área, eu até me arrisco, vá se acostumando com a sombra, é assim que a vida
"some dos seus olhos"
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– Tem gente que envelhece, tem gente que
estraga; eu estraguei; a vida insiste em fechar portas para mim, então eu
passei achar inútil continuar batendo nelas; se decidi parar de viver por que
não tenho sonhos? Pelo contrário, eu tenho muitos sonhos, só que eu enfiei
minha perna em uma estrada de barro e eu não consigo sair, e a cada dia que
passa, mais eu acredito que nunca vou tirar minha perna daqui, pois o barro
seca, né? Isso faz muito tempo, amor de mãe tem limite, amor de pai não existe,
e estou aqui "invadindo" o espaço dele, filho aqui não tem casa,
filho aqui é no máximo agregado; carrego um medo imenso, diagnosticado com TAG,
mas de morrer eu não tenho medo
v
– Quando aparece você, até terremoto dá vontade
de ver
xoxo















