18 de jun. de 2026

"((Nº135)Nº40))"

 




40

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– Pode encostar o carro na bomba
Então eu encosto
– Não precisa sair do carro
– Eu costumo sair carro, sei que existe risco de explosão durante o abastecimento
Ele ri
– Isso é quase impossível, moço
Mesmo assim prefiro esperar ao lado do totem da Elma Chips
– O que vai querer, amigo?
– Pode completar de inveja
Ele estranha, se certifica
– Mas já está completo, moço 
Eu fecho a boca e penso "Eu sabia..."

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– Quando eu lembro que eles escondem os doces no carro, eu lembro que isso também está ligado pelo fato de que faz tempo que eu não entro naquele carro, que eu sou um saco de carniça que eles não sabem jogar fora sem que ninguém perceba
– Quando eu alugar um pequeno lar para mim, e eu olhar para o espelho, eu não vou enxergar um ser humano, vou precisar olhar muitas vezes até eu conseguir enxergar um ser humano nele depois de tudo o que me fizeram passar, depois de toda a carniça que me disseram
– Por isso hoje, estou tão triste; por isso ontem, estava tão triste; por isso amanhã, estarei tão triste

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– Existe a pessoa, mas existe o sonho, se não tiver sonho não vale a pena, meu três ex-namorados sequer eram pessoas; toda morte é a interrupção de algo que poderia ter sido, não importa em que momento, evitar a decisão legítima do suicídio é desejar concluir o que deve ser, é o medo de se acusar de não ter tentado, como se existisse algo na vida que valesse a pena a dor de permanecer nela, não passa da covardia de perceber uma atemporalidade do desaparecimento e tampouco da insignificância do ser ante da imensidão, ante da pobreza de uma vida cinza
– Eu não sou biológico, meus pais me acharam no lixo, graças à não haver nenhuma guerra civil nesse país, não houve necessidade de esforço de fugirmos para Londres assim que me pegaram do lixo
– Quer saber? Se não me pagar, se me enganar, que se dane, a vida não será mais nem menos horrível por isso

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– E ver a beleza, e ver saltar a palavra "nunca" como um algoritmo, nunca diga nunca resulta em sempre? E se sempre diga sempre resulta em nunca?
– Eu não sou a guerra, mas sempre sou eu que tenho de esquecer do ataque e sugerir a paz; o ambiente fica mais leve, eu sento em uma nuvem por um tempo, mas as luzes se apagam de novo, os raios voltam a incomodar, na impossibilidade momentânea é onde a vida não presta, no sumiço do cartucho é onde a vida não presta, e principalmente na inércia, é onde a vida é horrível; amanhã vai fazer uma década que eu pedi o meu resgate, até agora ninguém nunca veio fazer o salvamento, eu continuo refazendo o pedido do meu resgate, não adianta ficar na grade esperando, eles nunca vem, todos os dias eu peço socorro pela internet, eles me entrevistam, me humilham, mas me ignoram, acham que a minha miséria não é o suficiente; tenho dificuldades de me mover de um cômodo para outro, meu peso real é muito maior quando tento me cuidar, quando tento progredir, é onde a vida coça

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– Ah, tá, é uma dopamina escorrida ralo sujo abaixo; sonho, se houver a mínima possibilidade de se tornar realidade, então não é sonho, sonhos foram feitos para serem impossíveis, sonho e realidade não se misturam, não há trégua, quando alguém diz que realizou um sonho, este não sabe o que é sonho, apenas perseguiu uma meta real, sabia o caminho para atingi-la e planejou o mapa e as contas para atingi-la, o sonho é outro fundo, é impossível saber como alcança-lo, o sonho é que faz contas para saber se você o merece e, na grandíssima maioria das vezes, o ser humano não merece viver um sonho, o ser humano nasce sonhando e morre sonhando, engana a si próprio e aos outros afirmando que é feliz, vivendo uma vida repleta de pesadelos reais, o ser humano ainda pretende vender uma imagem de que se aceita, mas essa imagem só serve para os outros, se o ser humano se aceita, não é necessário sonhar, mas como não se aceita, o sonho serve não mais como redenção, talvez, quando Plath disse que "uma vida sem sonhos é loucura", talvez seja sobre isso, todo mundo esconde a própria loucura, e a própria Plath acabou com a cabeça dentro de um forno de cozinha, vedando os filhos pequenos no quarto para os manter vivos, dando a chance ao marido; sonhos não envelhecem, mas nós envelhecemos, e é isso que nos deixam tão longe deles

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– Já me imaginei vivendo de várias formas, fazendo, sendo tantas coisas diferentes, se eu tivesse visto de trabalho para viver na Suécia, eu sequer passaria uma semana de férias no Brasil, mas olhando para a idade que eu tenho, agora não dá mais tempo de viver, só de sobreviver, visto que até o direito de morrer é dificultado, caio em saber que comprar um revólver no mercado negro custa bem mais do que eu esperava, é o mesmo valor que a editora pediu para publicar meu livro novo no Brasil e em Portugal, o que é mais sensato? Abreviar uma cilada ou investir em um sonho? Ficar lá esperando sentado em uma nuvem pesada, escura, balançando as pernas comendo pipoca de micro-ondas
– Quando você acorda, bom dia, vamos mascarar o dia? Os controles foram escondidos e os suecos estrearam melhor do que todos imaginaram no mundial de futebol, mas não consegui ficar acordado o suficiente para ver/ouvir isso, os processos ainda continuam acontecendo e eu ainda nutro pretensões empregatícias, chego ao quarto para fotografar objetos à que tenho afeto e encontro uma mesa suja
– Molham a ponta do cigarro da idosa para ela desistir de fumar, escondem os controles da televisão para eu levantar do sofá e me sentar em frente ao computador para produzir algo; no caso dela é para o bem, no meu é sempre para o mau
– Hoje eu vou tomar banho com ou sem a sua ajuda



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– Há uma semana atrás eu revivi o fato de que é possível buscar o meu perfil de aktep no kinopoisk, "aktep" significa ator em russo, kinopoisk é uma espécie de IMBD russo, lá é possível buscar meu nome de ator, os curtas em que atuei, e dar estrelinhas, mesmo eu não sendo uma estrelinha, se um russo ter me visto em uma telona, ou baixado algo em que colaborei, pode acessar o kinopoisk e, difícil alguém dá estrelinha, porque só dão estrelinha para quem é estrelinha, e eu sou atípico demais para isso, mas se deram o trabalho de fazer uma página para o "aktep" Hugo Rodrigo Guimarães, é sinal que há motivo
– O meu último convite para cinema, eu tive que recusar por conta do ex-namorado ciumento que me traía em aplicativos enquanto eu trabalhava para sustentar eu, ele e a casa

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– O dia mais feliz na terra não será quando a luz apagar dos seus olhos, vai ser quando a luz acender nos meus olhos

 

xoxo

8 de jun. de 2026

"((Nº135)Nº39))"

 


39

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– Hoje mesmo pensei no nobel, tinha 1 centavo na conta, bebia refrigerante em um copo de medidas, até os copos ele esconde, de todas as formas que uma pessoa consegue ser pobre: ele é pobre, quando ele chegar do outro lado, chegará nu, e será recebido pelo saco de gatos que matou, que lhe arrancarão a pele, e ele sentirá a dor que será só o mínimo; verá, que tinha o coração do tamanho de uma abelha
– Tá ocupada?
– Tô
– Vamo lá bater no Hugo comigo?
– Não

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– Como também há lugares para esconder dentro do corpo, eu abandonei meu sorriso; como não há nenhum lugar na internet que se saiba, onde eu possa expor o corpo sem me defender, eu abri mão da ilusão dessa liberdade, só eu é quem pago malas de dólares e ganho algumas moedas, aliás;
– Depois de mim, que é no começo a produção de mim, nem isso me sustenta boiando na enchente, ele, bonito demais, passa a não mais conversar comigo, começa a ser entrevistado, e depois, pior, começa a fazer o "favor" de responder, e o pior é que, nem sei se é o pior, é que hoje eu já percebo esse movimento muito mais cedo, e é melhor assim, não correr o risco de ir até ele e mostrar o que há de mim sem produção, porque onde há movimento o tempo todo não há produção, e é onde a vida é feia, por isso eu decidi me afastar da vida por uma semana, afastar-me do jeito que eu a conheço
– A reputação pode se ocultar, mas a conduta não é ilibada, a natureza humana não é ilibada, e tampouco a sua consciência;
– E então eu já chego à tal determinada idade da vida, não é uma "certa" idade da vida, é "determinada" idade da vida, pois se em um momento “qualquer” da vida você estipula casa, estipula marido, quando você "determina" a vida, a vida é errada
– Você sim, consegue perceber a idade, o que o tempo fez com você, mas o terror é tanto, que o corpo se defende dessa lástima e, mesmo naqueles momentos em que você percebe, logo você rebate, achando que sua inteligência, sua cultura, seu nível intelectual, sua negligência, sua maturidade seletiva e principalmente seu dinheiro, é triste, mas sobretudo seu dinheiro, compensa o rosto, o corpo e os dentes que você não reconhece e não quer reconhecer
– Você não quer juntar velhice; o fato de ter prosperado merece um casaco de general cheio de anéis, e isso significa um garoto vinte anos mais jovem e, sim, eles aparecem, é só mima-los com coisas caras, se o sexo que você oferece não for bom o bastante, eles tem muitos amiguinhos por aí que resolvem isso; até que vocês puxam o barbante até o final, e lá vocês se encontram muito bem vestidos na praia para se casarem, com as testemunhas compostas com aquelas famílias fraturadas, que sorriem só com a metade do rosto, parecem estar ali fazendo um favor, são famílias esburacadas, se não são de coração são de alma, de A ou B, ou ambos, já que ao inventarem a palavra “alma”, pretendiam se referiam ao melhor do ser humano, mas nesses tempos, parece que a alma ainda não chegou lá, não é mesmo? Um tio solta um pensamento no ar:

– Que situação... Sempre foi um menino escandaloso, minha irmã deve estar morta de vergonha... Deus me livre aparecer alguém conhecido por aqui, Será que vai ter troca de aliança? Beijo? Eu não vou sair em foto nenhuma! Vou pegar minha mulher e ir embora na ponta dos pés!

– É sempre assim, o novinho que não é lá tão novinho, levou tempo, mas você descobriu que ao invés de dezenove ele tem trinta, bem para algumas pessoas, a boa genética fomenta a prática desse tipo de enganação; o novinho vê a grossa aliança de ouro e o primeiro pensamento é vendê-la; os pedidos quando se fecha os olhos antes de se dizer “sim” no altar? O velho quer amor e quer casa, o novinho quer dinheiro e quer casa, na realidade, aquela que se está atrás do para-brisa, o que ele quer é a sua morte e que seja rápida, para ficar com tudo o que você tem, para aí sim, ter a oportunidade de casar por amor; por enquanto, sejam felizes! Felizes? Ou melhor: aproveitem o quanto dure

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– Quando vou fechar o plano, você abre esse sorrisinho sacana, veste esse shortinho minúsculo, de putinho fácil, parece que só tem esse, quando vou cancelar o plano, você faz uma cara de cu e pergunta o meu nome, como se eu não tivesse nome, mas você sabia meu nome, você não merece sentar nessa cadeirinha, você merece ter nascido em Ruanda, merecia estar lá, lá não tem São Paulo para você migrar, o inferno está apertando, a ereção começa a ficar mais difícil, e acho que é melhor assim, sabe de uma coisa? Eu nem lembro da última vez em que um homem me abraçou, é tudo tão rápido, dura minutos, tanto que aprendi com eles para fazer com os outros, não porque eu também quis ser ruim, é porque eu não vejo mais relações entre homens que não são mais vazias assim, e nós aprendemos o que vemos
– "Quem não deve, também teme", vi hoje essa frase com letras garrafais pintada na lateral de um prédio aqui em Pinheiros, eu tinha acabado de sair da estação Faria Lima, e o prédio ficava em uma rua quase na esquina com a Avenida Faria Lima, o contexto é sempre implacável, naquela Avenida, todos os que devem, nada temem, e você, não se atreva a dizer o contrário, "Quem não deve, não treme", será que essa faz mais sentido?

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– Muitas vezes, ao abrir os olhos, não se trata de um dia de vida, pois se não é vida para todos, se é morte para muitos, então é problemática, ou então é ignorar a morte cegamente até que ela surpreenda, mas o que ela implica não é só um buraco, é um abalo sísmico, e ante a morte do vizinho, as senhoras budistas começam a chegar, uma a uma, sempre muito sorridentes, para mais uma reunião, mais uma "celebração" da vida, ou uma renovação de energia e paciência para continuar aturando os maridos; o jovem vizinho da casa em frente morre de enfarto em uma cidade do interior do estado, ofereceram muitos trabalhos de corridas de aplicativos por lá, mas ficamos sabendo há casal de dias atrás que ele foi encontrado morto na casa onde estava, ele tinha uns vinte e cinco anos e nós já sabemos o que mata jovens de enfarto, não é mesmo? Claro que soube que alguns vizinhos disseram coisas desagradáveis, maldosas, apenas por hábito, mas e a memória, e os votos pelo descanso? Onde ficam? Em nosso tempo mais e mais certas palavras se tornam "ofensivas", caem em desuso, assim como a palavra "cadávil" evolui para "cadáver"
– Só três atletas tem direito à última tentativa nas provas de campo nas etapas da Diamond League de atletismo agora, não? E nos outras que ficam de fora, pintam com um lápis preto grosso uma lágrima em cada olho, um risco que sai do ângulo do olho e vai quase até a mandíbula; eu, eu mesmo, raramente ficava entre os três melhores, e não tinha lápis preto escuro nenhum para desenhar as lágrimas, depois de ouvir risos após gritar ao soltar o dardo da mão para ajudá-lo a ir mais longe, eu tinha medo por não saber por que riam, nunca soube e eu engolia um vômito escuro no lugar

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– O sete de junho mudou meu aniversário, a luz da lâmpada me faz ajustes importantes, a luz do sol me traz de volta alguém que eu nem lembro, mas até me orgulho; pena que todo dia vira noite
– Se eu aceito qualquer um daqueles que eu chamo de lixo só por causa da porcaria pesada que eles tem a me oferecer, então o lixo sou eu, não eles, não entendo porque demorou tanto para eu perceber; quando o absurdo acaba, quando se percebe quantas colheres de sopa de açúcar foram colocadas naquele café curto, você percebe que ligar um ponto ao outro, no caso você, em condições muito ruins, desde a sua casa, requer esforço, força de vontade, coragem, mesmo não havendo físico, não havendo psicológico para isso, e você só tenta porque o ponto de partida já se tornou insuportável, não é o corpo que vai, é a alma que puxa, quando não funciona ela empurra, mesmo eu sendo ateu, mesmo eu não acreditando, não sabendo, e não podendo descrever, desenhar a alma, talvez não seja nada, só um nome, mas ás vezes sim, algo além do meu corpo, às vezes me move
– Ligar um ponto ao outro? Parece fácil? Você já pensou nos seus trajetos diários? Da sua casa até o trabalho? Ao ensino? Os caminhos que escolhe? Quanto tempo leva? E quando volta? São os mesmos? Como você sobe uma escada? Sobe do jeito mais saudável? Mais rápido? Bem, são perguntas que ouço muito na área em que atuo profissionalmente enquanto não me torno best seller ou músico relevante; slogan como "ajudamos você a ligar um ponto ao outro da melhor forma possível", parece fácil? Não, é bem difícil, importar uma carga da Conchinchina e entregar no destino final aqui no nosso país, dá um trabalho do c******! E para ligar esses dois pontos, costumamos aplicar conceitos como melhoria contínua e otimização de processos

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– Existem pontos onde eu não quero chegar, mas o ponto onde eu estou é mil vezes pior

 

xoxo