20 de dez. de 2025

"Nº135(Nº29)"

 


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- Coloquei uma escada móvel de madeira e corda no seu pescoço; se eu não conseguir chegar até lá em cima, sei que a culpa vai ser minha, mesmo com tudo contra, vento, chuva, gelo... não vou querer sentar apenas no colo, vou querer sentar à mesa, e vou dizer que não como crio e não como chester pelos motivos certos; a subida vai se mostrar tão difícil que vou congelar dois dedos, escurecer dois dedos, necrosar dois dedos, perder dois dedos e então faltará motivo para chegar lá em cima 

 

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- Até que veio uma pulga atrás da minha orelha, pois que fiquei aí, não vá embora, marque território, arrume suas coisinhas, seu ferro de passar roupas, seu assoalho, assim outras não vêm me encher o saco 

- Cometi a poda das minhas folhas secas, tirei novos retratos, aqueles com o temporizador, no teatro muita gente riria, ao ver que todas as flores feias caíram com o vendaval e só sobrou o toco, essa é a minha nova face, novo sorriso, nova velhice, a face logo desliguei da tela na minha frente, nem eu gostei dele, fiz porque tive que "tentar algo", não, eu não gosto desse rosto e nem da essência dele, talvez, apenas talvez alguém goste, ou talvez aconteça uma enchente, uma grande enchente, que me leve de volta para a zona sul, vão abrir os portões, vão nos deixar passar, vão abrir os portões, vão me deixar passar 

- Você sofre porque impor a zoomorfização à outrém é uma luta de cabo de guerra, você sempre perde para aqueles homens que se impõe à você como se a besta fosse você ante a beleza, eles sequer sabem falar português fluente, ou intermediário, homens feios, sem cultura, nem educação nem cultura, temos sua estratégia para o cabo de guerra, eles nem te tratam tão mal não pela soberba, mas por não conseguirem "entender" alguém como você, você não é uma bicha que usa um colar de pérolas falsas, você não é uma bichinha que tira fotos usando roupa íntima de mulher no seu álbum de fotos, então foda-se! Foda-se que não querem sair com você, não escuta esperar, esperar e esperar para colocar os dois para fora daqui 

 

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- Eu estou preocupado, eu não estou feliz, só o ditador da Venezuela está, e ele mente, ele não está; ah, a minha ave seca, natalina, católica, capitalista, bem, há uma chance bem grande de eu sentar a minha bunda branca em uma das cadeiras da ceia com as mãos abanando! O quê? O cristianismo não é sobre a pobreza? Não dizem por aí que os católicos são hipócritas porque não vivem a vida de privações que Jesus viveu? Ah, mas se querem consertar as coisas, por que os jecas não vão lá naquele areião que só sai briga, esperar que aquele mar ... e olha, chega!!

- Bem, o que eu queria dizer é que, quando as coisas parecem começar a dar certo, você tromba com o passado, e ele te dá um cruzado; bem, eu caí no chão, mas não dormi, quem diria que aquela "white lie" em um pedaço de papel, poderia trilhar o que eu poderia ou não fazer na minha breve vida; sim, os chineses são muito espertos, resta saber se, dentro daqueles corpos tão produtivos, existem bons corações 

- Ele só vai sossegar quando ele quebrar ela 

- Eu só vou sossegar quando você morrer 

- Sim, há bons corações, mas tem os que riem da minha cara e me chamam de mentiroso usando apenas os olhos, é melhor aceitar a realidade de que o mais importante deles só queria por adiante aquela reunião para ver a minha reação ao ser desmascarado, e daí eu pensei por choque, em nunca mais comprar nada daquele país, muito ao contrário do que venho fazendo, mas, com meus trinta e seis graus de graus de volta, eu lembrei que não devo culpar à todos por causa de apenas um, e ainda há uma remota chance de me aceitarem, aceitarem e mesmo assim não juntarei vida, não serei provedor, porque nada do que se conquista no pequeno mundo corporativo é seu, aquela cadeira, aquela máquina, aquela mesa; foi, foi bem humilhante, não vou passar o natal e o ano novo abaixo da linha da pobreza, mas vou, vou passar na pobreza, na tristeza e na solidão 

 

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- E você já se encontra assim? Você já é maior de idade (apenas por curiosidade)? Bom que ainda é possível perguntar em uma rede social se há sentido na vida e borbulhar... e pessoas humanas interagir... eu já conto décadas... para você, quando no meu posto, talvez, as redes sociais não serão mais habitadas por pessoas humanas... para mim, quando no seu posto, eu tinha quinze e morrer não estava na moda, sonhar estava na moda, só que o mundo que eu pisava era bem mais inóspito que o seu... o mundo era mais escuro... era difícil usa calças de moletom justas e meias azul roial que apareciam, e cabelos longos que eu sempre prendia por medo... minhas três únicas três amigas eram três álbuns trancados, conhecer o perfil inteiro delas não durava vinte minutos, com alguns cliques, alguns scrollings, durou um ano... uma delas era evangélica, o namorado ciumento dela conseguiu o telefone fixo da minha casa e contou para a minha mãe tudo o que sabia sobre mim, foi terrível, eu não tive direito a escolher quando e como seria meu outing... não, quase ninguém tinha celular... antes de alcançar a minha mãe ele me alcançou, me ameaçou... não sei dizer se ele é que conseguiu o número das coisas dela ou se ela mesmo é quem deu o número a ele, prefiro acreditar que foi ela quem deu, que era uma fanática, que só me tratava bem para se manter no grupo... eu já não simpatizava com cristãos, mas passei a desenvolver um nojo especial de evangélicos depois daquilo... o nome dela é Camila Zonzini, se você me expõe, eu te exponho... Internet? Existia, mas para quase nada que era útil, para ouvir música? Não... Eu comprava discos, comprava muitos, passei a adolescência inteira ouvindo Portishead, Massive Attack, Bjork... Eu sonhava? Sonhava, queria ser artista e ser amado, mas no meu aniversário as meninas contaram que pensaram em me dar uma hora com um garoto de programa de presente... Um câncer chamado imposição me fez perder os cabelos, não havia leis para explorar menores, nem mesmo em São Paulo, eu não sabia onde eu estava me metendo, é nessa hora que pai e mãe intervêm "Isso não é bom para você, desista disso!", mas para eles, qualquer coisa que dê dinheiro, muito ou pouco, não importa as condições, é positivo... Não, quer saber? Não, eu não saía, eu não tinha amigos para sair fora as amigas do colégio, por isso eu enchia a gaveta de dinheiro, até emprestava dinheiro, não fosse por isso, eu não teria comprado discos clássicos de artistas fundamentais para a minha formação cultural, Bowie, Elvis, Stones, Doors, Velvet Underground, Frank Zappa, Mutantes, Caetano, Patti Smith, Stooges, Van Morrison, Gal... E então o tempo passa e o sonho é postergado, compra-se guitarra, vende-se guitarra, e sempre prorroga-se entrar na aula de guitarra, talvez não seja melhor encontrar dois meninos em um desse grupos na Internet? Para tocar guitarra e bateria? Já que o principal eu tenho, faço letra, faço música e canto? Até que deu certo, eu estava super feliz com a banda GRASSS, que montei com dois meninos de Campinas em 2022, mas... no ano inteiro de 2022 nós fizemos apenas três ensaios, e ouvi escapar da boca de um deles que nossa banda nem era séria, e o guitarrista me deu uma desculpa puta esfarrapada pra acabar com a banda... Pois passou-se três anos e eu não saí do lugar, compus várias músicas, claro, mas falta o instrumental, que, no caso, eu farei também, pra isso preciso estudar guitarra, pra isso preciso de dinheiro e, para isso, preciso de uma aprovação do pessoal de exatas, para ter trabalho novo, e remuneração gorda... E não fui amado... Se serei amanhã? Se ainda vos espero? Não, não espero mais, eu preferi reciclar esse sonho, e torna-lo numa "expectativa", que se refere em adquirir a capacidade de viver sozinho, não serei o único em uma metrópole como São Paulo, muitas pessoas vivem só e gostam de viver assim, após adquirir condições emocionais para isso, o que não significa viver sem sexo, posso ter uma pessoa que me "visita" com frequência, mas não divide o cobertor comigo... Eu, minha mãe e minha gata morta nos meus braços, envolta em moletom com o meu cheiro para ela não esquecer de mim, fomos fazer o enterro dela, minha mãe cavou o buraco, eu coloquei a gata dentro, minha mãe ir cobrir o túmulo, mas eu não deixei, tirei a pá da mão dela e cobri o corpo da gata, minha mãe chorou, fomos embora, olhei para trás e fiquei com pena de deixar a gata sozinha para trás, a "minha gata", ela nunca foi minha, agora está morta e nunca mais vai voltar, e assim será com todos nós... Ah, sobre as agruras do ser humano moderno, por experiência própria: não tentem o suicídio! Não dá certo! E você ainda pode trazer uma sequela! Sossegue o rabo e espere a morte vir por causas naturais, é melhor assim, procure aí um curso de alguma coisa que você gosta

 

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Well it's hotter 'n blazes 

And all the long faces

There'll be no oasis for a dry local grazier

There'll be no refreshment 

For a thirsty jackaroo

From Melbourne to Adelaide 

On the overlander

With newfangled buffet cars 

And faster locomotives

The train stopped in Serviceton

Less and less often

No, there's nothing sadder 

Than a town with no cheer

 

Vic Rail decided the canteen was no longer necessary there

No spirits, no bilgewater 

And eighty dry locals

And the high noon sun beats 

A hundred and four

There's a hummingbird trapped 

In a closed-down shoe store

This tiny Victorian rhubarb

Kept the watering hole open for sixty-five years

Now it's boilin' in a miserable 

March twenty-first

Wrapped the hills in the blanket 

Of Patterson's curse

The train smokes down the xylophone, there'll be no stopping here

All you can be is thirsty

In a town with no cheer

No Bourbon, no Branchwater

Though the townspeople here

Fought her Vic Rail decree tooth and nail

Now it's boilin' in a miserable

March twenty-first

Wrapped the hills in a blanket 

Of Patterson's curse

The train smokes down the xylophone There'll be no stopping here

All ya can be is thirsty 

In a town with no cheer

(Tom Waits)

 

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- Os velhos sempre vão dormir no mesmo quarto, na mesma cama; eu fico aqui embaixo sozinho, sim, agora eu não tenho mais a minha amiguinha, minha gatinha que morreu no mês passado;

- Eu pensei que eu tinha amigos na faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP, mas a verdade é que não tenho nenhum, tudo por causa de coisas impensadas que fiz, coisas que fui "levado" a fazer, não que propriamente fiz, mas ninguém quis me ouvir, porque se afastar é sempre o caminho mais curto e mais fácil 

- Eu pensei que eu tinha amigos na cena da literatura paulistana, mas a verdade é que não tenho nenhum, tudo por causa de coisas impensadas que fiz, coisas que fui "levado" a fazer, não que propriamente fiz, mas ninguém quis me ouvir, porque se afastar é sempre o caminho mais curto e mais fácil 

- Talvez seja saudável ter amigos, para mim não sobrou nenhum, pelo menos nenhum que se dê para conversar sem dar sexo em troca

- Eu queria adotar dois filhotes de gato, é o tipo de amigo sincero e carinhoso que se compra, mas minha mãe disse que não, porque ela sempre pensa nela mesma ao invés de pensar no filho, que enlouquece um pouquinho mais a cada dia, esses gatinhos fariam tão bem pra mim agora... todos os psiquiatras recomendam que os pacientes tenham animais, eles fazem com que a vida seja menos pesada, talvez minha mãe pense que a vida deva ser pesada 

 

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- Por curiosidade, uma onça parda adentra uma área urbana por curiosidade 

 


                                                                   xoxo 


1 de dez. de 2025

(Nº135(Nº28)



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- Se o coelho A desmarca na quinta-feira e você o substitui pelo coelho B > pênis de porco
- Se você não consegue preencher uma folha livre dos coelhos por quatro meses > pênis de porco
- Quando a médica veterinária olha pra mim com cara de nojo várias vezes, parece que elas devem ser muito limpas > pênis de porco
- É melhor mostrar que interrompeu a folha de sequência de dias limpo ou queimar a folha? > pênis de porco
- Eu disse que casaria com ele, mesmo com o fato de que eu jamais casaria com um tipo daqueles, ele respondeu que também casaria, seu desaparecimento à francesa veio com o gozo e o anexo de me dizer que tenho cara de psicopata, que não sair comigo era a coisa mais segura a se fazer> pênis de porco
- É preciso fazer uma remenda na constituição
- Você diz que só pode me encontrar ás 05:30 da manhã para fazer "coisas" comigo, porque você tem uma esposa, e que pode, às vezes, excepcionalmente, em caráter de sumíssima exceção, me encontrar ás 22:30 pelo mesmo motivo, mas será que você de fato tem uma esposa? Ou você o afirma apenas para sobrepor a sua masculinidade acima de outrém? De forma dessa mentirosa, como em outra hipócrita como você se referiu de forma pouco gentil aos viciados em drogas e bêbados que ficam naquele descampado onde você próximo dali, pretendia me masturbar com a ajuda de uma felação, mas perdeu o bonde porque eu, não fui ao encontro alegando estar cansado! E veja que, tempos atrás eu mesmo é que me encontrava perto dos viciados em drogas e dos bêbados> pênis de porco
- Eu ainda perguntei sobre isso vendo a televisão "Você está indo por ele ou por você?", fiz a pergunta porque faltei ao encontro passado como um fantasma, e mesmo fazendo as perguntas certas "Veja só como ele está salvo no seu telefone, a primeira palavra é um gênero, usado de uma forma pouco gentil, o segundo é uma gíria, para algo nada saudável, gíria de gueto, marginalizada, o nome real também é uma gíria, para algo que destrói corpos e vidas"; mas fui, achando pensando ter uma dívida e que talvez, pudesse ser “divertido” > pênis de porco
- E aí, lourinho? Algum dia você vai voltar para a minha vida? Acho que cansei de pôr a culpa em mim mesmo o tempo todo por conta de um só comportamento que coloca você em um degrau acima e eu em um degrau abaixo, sendo que se exime a culpa dos dois homens franceses, será que se exime mesmo a culpa dos dois homens franceses? E então, há a horrenda hora em que há de se encontrar o mundo, eu não preciso dele pra nada e ele não precisa de mim pra nada> pênis de porco



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- Dói ir dormir com fome, mas também dói ir dormir com ódio; dói ir dormir com qualquer dedo, mas também dói ir dormir como consumidor; dói ir dormir com cinco bolas de basquete, mas também dói ir dormir com um buraco estreito demais para elas caírem; dói ir dormir com uma praga, mas também dói ir dormir com uma máfia; dói ir dormir com um pedaço da orelha dela, mas também dói ir dormir sem pedaço nenhum; há de doer um assassino em série adolescente, encomendado do Mato Grosso do Sul, eu seria a primeira vítima do meu conhecimento, mas sou um Tim Maia da região e furei dois encontros com ele, o garoto desistiu, mas me assombrou mostrando uma miniatura da foto do que fez com outro garoto, decepou os dedos de uma das mãos dele, eu perguntei "Você ia fazer isso comigo também?", ele fingiu demência; a segunda morte perdeu-se na conexão dos meus neurônios, mas ele atacou de novo, decapitou um garoto que não morava há nem um quilômetro de mim, e esse assassino só tem dezoito anos, está boiando em um inocente App para conectar homens gays, assim como boiam os mortos e, se tem ele podem haver muitos outros; vim de São Petersburgo,  Scarlet e eu, muitas milhas até aqui, quando abri os olhos eu estava cego como os pode ver;

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- Em um dia se pisa na pedra e no outro se pisa na água

- A recreação barata começa um presépio e termina uma presepada

- Sou orgulhosamente ateu, mas faz alguns anos que aguardo amargamente a ave da corporação

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- Parar de fumar é possível, mas por enquanto eu vou fumar mais um pouquinho; eu posso escrever, eu posso escrever, até essa maldita gripe morrer; serei conscientemente triste, após eu pôr as mãos no meu remédio que controla a libido, e assim que acabarem, já terei novos, religiosamente, porque dói, dói ser exótico, que é o mais gentil que se pode dizer, e dói ser velho e ser fantasma; agora que meus pais se livraram da gata, agora querem se livrar de mim
- Não era o último emprego do mundo...
- Mas parece que nenhum emprego do mundo é para você
- Já estou exausto de tentar me matar usando comprimidos, quero me matar de outro jeito, você tem alguma sugestão?
- O problema é que você tem enraizados depois dos seus radicais, sufixos de posse que você usa para dar pertencimento às coisas, especialmente seres vivos, quase sempre os seres humanos que, além de possuírem arbítrio, morrem, e isso vai terrivelmente contra o seu transtorno de ansiedade generalizada; viver com o horror diário do medo de perder um homem que nem é seu? Ninguém mais envelhece juntinho bebendo chá na varanda, acho que muito em breve ninguém mais vai ter avô e avó, marido e esposa já não tem mais, o que tem é um "acordo" no cartório para proteger o outro no caso de morte, proteger os bens, lembra daquela música da liz Phair que já vimos por aqui? (House/Car and Wife/Gunshy...) vê? A cônjuge vem sempre por último, ninguém tem mais namorado e namorada, esses "ajuntamentos" duram poucas semanas, terminam em sangue e a perseguição para uma improvável volta é diagnosticada como "confusão mental"; acho que o flower power, que era um antagonismo ao conservadorismo no fim da década de 1960, se enxergava como free "love", mas o que eles eram e representavam, era na prática, o free "sex" e, toda essa "liberdade" e rebeldia, criou uma sociedade de pessoas nada conservadoras, mas que não são capazes de organizar toda essa liberdade e rebeldia em seus próprios relacionamentos, e acabam cometendo a falha primal do homo sapiens, possuir alguém, a gata, por exemplo, que você pensou que era pra sempre, morreu do seu lado
- Mas veja só, morreu e urinou, o meu tio Dorival também foi encontrado morto e urinado, por que será que os gatos, os homens, as moléculas, sei lá, urinam ao morrer?
- Você pesquisou?
- Eu não, mas como eu sou antropologista formado pelo Google, já lhe dou a resposta; bem, você quer saber mesmo? É que não é possível explicar sem pôr na mesa todas as informações relevantes
- Não tem problema! Quem quiser saber que vá procurar e, eu dizia sobre o verbo "belong", que não se traduz muito bem para o português
- É sobre a nossa geração que vai envelhecer sozinha e morrer sozinha, e isso também pode ser uma escolha
- Algo assim
- Era uma vez eu, e eu não dei certo, e eu não aconteci; era uma vez eu e percebi minha morte até que cedo, o mundo então começou a perceber que o próprio indivíduo já pode declarar a própria morte, e essa se dá quando não é mais possível avançar em mais nenhuma das áreas da vida, tudo deu miseravelmente e definitivamente errado; era uma vez eu, fui até o cartório no dia agendado para dar entrada na minha morte
- No que posso ser útil?
- Eu consigo perceber que já me encontro em morte moral, existencial, corporal, socioeconômica e emocional, eu percebo que as pouquíssimas pessoas da minha rede de apoio, se comportam como se quisessem "apressar" a minha morte, enquanto ainda podem cuidar de mim, dizem que quando morrerem e sobrar apenas eu, sem recursos, eu vou começar a comer as paredes, porque minha irmã jamais me ajudaria; o que sobraria de produtivo em mim, nesse caso, quanto mais deteriorado melhor: meu intelecto, mas sofro do país, esse país é incompatível para esse intelecto que eu trouxe até aqui
- Tem certeza do que quer?
- Claro
- Outro dia apareceu aqui uma mulher sem um braço e sem as duas pernas
- Ah, sim, e por isso eu tenho obrigação de ser feliz?
- Você tem um corpo com a altura e a massa que foram projetadas para você
- Eu não aceito!
- Terei casa? Terei homem? Terei amor? Terei profissão odiosa para pagar por isso? Casa, se for uma de 10m²? Não vejo problemas em morrer no aluguel, com a passagem do tempo foi possível perceber o homem que consigo pegar, e se não for o que eu quero, venho colocar na mente que tenho um membro com cinco dedos que se contrapõe ao problema do romantismo do acasalamento em cinco minutos, não me casarei, já consigo recusar tudo o que é falso; Amor? Eu não conheço, ninguém me ensinou, sou frio, se já parti odiado ao partir existindo, é difícil amar a si mesmo, e se eu nunca soube me amar, como eu saberia amar um garoto, um homem? Agora só preciso usar a casca para me manter no emprego odioso, fazer tudo direitinho, manter um low profile, passar desapercebido, assim se "termina" de morrer, eu merecia mais que isso, sabe? "Like A Rolling Stone" ainda continua atual, todos os meus "amigos" ou "contatos" não existem mais porque eu sofri uma condenação por morte por apedrejamento digital por conta de algumas poucas linhas mal pensadas que eu escrevi por aí, daí um cancelamento, coisa feita por pessoas sem educação nenhuma, do nível daqueles bandidos que fazem tribunal do crime em favelas e colocam uma pessoa dentro de alguns pneus e tacam fogo até que sobre só os ossos, as redes sociais estão cheias de gente assim, daí um exemplo de como o ser humano é mau na essência, ao notar alguém sendo apedrejado, cada um rapidamente procura a sua pedra, sem antes sequer se inteirar da coisa e, quanto pior for a morte melhor, libera endorfina nas nessas pessoas, e então se passaram anos, mas por incrível que pareça, um lixo como eu ainda consegue sonhar, um garoto no aplicativo, que tinha um moicano, me rejeitou duas vezes, parecia que ela era a amora que sobrou, e o resto, o muro, eu por vezes tive vontade de ver o cérebro dele, bem por trás da parte mais curta do moicano, "Não vale a pena" só por causa do resultado prisão, não existisse esse o mundo estaria cheio de assassinos soltos por aí, mas e se fosse só eu e ele? E se ninguém visse? Nem ficasse sabendo? Se eu sou o resultado e eu não mereço viver, ele que é a causa, também não merece
- Era uma vez eu, e eu não pude escolher as tristezas, o sonho de um indivíduo é o sonho individual, é o primeiro sonho que alguém sonha, e é um sonho possível, ninguém aprende a sonhar, e ninguém desaprende a sonhar, perdendo-se a crença de que esse sonho é crível em algum momento da vida, morre-se, pois além de loucura, parar de sonhar é deixar de existir
- Era uma vez eu e, segundo os termômetros, eu parei de existir