10 de jul de 2017

O DEDO PARA FORA DA COVA

Se antes ele tinha um dedinho que fosse para fora da cova, agora ele dragou-se de vez para as profundezas da santidade para sempre. Falei com ele pela última vez, me desculpando por ser eu mas. Agora é tarde para não ser eu.
Sigo até o dia de hoje acreditando no tempo, que ele cura, que eu devo “passar por esse processo” mas. Existem as fases da desilusão amorosa: o amor, a recusa, a desilusão, a raiva, a indiferença e por fim o nojo. Assim aconteceu com os outros homens que me apaixonei mas. Como ter raiva de alguém como ele?
No domingo eu estava fazendo macarrão com queijo, segurando as lágrimas porque o coração ainda dói muito. As lágrimas eram por não conseguir tê-lo e essa era uma falha, uma falta difícil de suportar e de carregar.

Um homem e uma missão. Eu tenho uma missão assim como uma mulher ruiva que viaja o país carregando um piano, para fazer as teclas chorar e emocionar a todos. Sim, porque sempre que ouço som de piano tenho a impressão que cada nota é uma lágrima. A minha missão foi cumprida. Publiquei três livros de literatura e isso é o mais importante, pois o dom que me foi dado foi o da escrita, pelo menos foi a esse dom que eu mais me dediquei. O esporte é uma ciência exata e embora eu sempre tenha demonstrado talento, talvez eu não me tornasse tão relevante quanto fui à literatura. Eu acredito que fui um escritor melhor do que atleta, se eu tivesse dedicado minha vida inteira para ser atleta. A música eu só a fiz no coração, não passou de intenção. Sei que nunca é tarde, mas é tarde.

Na segunda-feira eu vou embora. Casa nova, emprego novo, but if it’s not asking too much, please send me someone to love…

Passei menos de quinze dias na casa da minha mãe e é tão triste ser recebido como um estorvo, um inconveniente, um fracasso, porque eu tinha a obrigação de estar “ganhando muito dinheiro” e não precisar ficar na casa deles por parcos quinze dias. A incoerência é que eles não me deram educação suficiente para “ganhar muito dinheiro”. Se dependesse dos meus pais, eu estaria atrás de uma baia de telemarketing até hoje. Estudei sozinho para me formar em uma faculdade pública e estar cursando a segunda. Aprendi a falar inglês sozinho. É realmente desanimador o quanto eles não se importam com o meu bem estar, com a minha “felicidade”, dando palpites fora da realidade, da minha realidade. A literatura é uma loucura da minha cabeça, não? O hobby do atletismo universitário é apenas uma perda de tempo, tempo que eu deveria estar investindo em “ganhar muito dinheiro”. Não importa se o atletismo é uma das poucas coisas que me dá prazer e bem estar na vida, pois a única coisa que importa é “ganhar muito dinheiro”. Disse a minha mãe que estaria indo embora da casa dela pela última vez e que só voltaria morto, e eu não quis brigar com ela, só quis ser prático.

Agora eu consigo ter uma vertigem do quanto o atletismo é insignificante na minha vida. Porém, ele serve para matar o tempo. Domingo não fui fazer a musculação que eu deveria fazer. Passei o dia todo melancólico na cama, o que não teria acontecido se eu tivesse ido treinar. Passei o dia chorando em cima do macarrão por não poder ter o homem mais maravilhoso que já conheci, por não ter conseguido tê-lo por mais de três noites na minha vida. Essas três noites inclusive, são parte da minha “missão” na terra, e foram cumpridas.

Agora há a questão da escolha e da missão. Eu tenho muita dúvida se devemos fazer como os animais que, não antecipam a morte, apenas seguem o seu caminho até o fim. A minha gata está aqui me mostrando isso. Lambendo-se, tossindo, engordando, ela pode pular da janela alta com a cabeça direto no azulejo lá embaixo, mas não.
Será que eu devo apenas seguir em frente para ver o que está reservado para mim? Se há algo reservado para mim? Ou apenas me dar por satisfeito com tudo o que fiz até o momento tendo a elevada desconfiança de que o que virá pela frente será apenas repetição do que já aconteceu na minha vida. Ou seja, não acontecerá mais nada de diferente ou relevante e que a única coisa importante que eu tenho para fazer é contribuir para a saúde da previdência.

Eu não penso que é uma questão de gratidão pelo que a vida me deu até agora. Tenho um corpo perfeito (não estou falando de beleza), posso enxergar, ouvir, falar, andar, não tenho nenhuma deficiência ou limitação, tenho acesso a comida, água potável, tenho uma cama para dormir todas as noites (nunca houve um dia em que eu não tive uma cama para dormir e algo para comer na manhã seguinte). Além disso, sou branco, sou homem (apesar de gay), tenho boa aparência, sei me comunicar razoavelmente bem, tenho um QI acima da média e sou razoavelmente carismático.
Apesar de tudo isso, me incomoda viver. Dói viver. Meu coração dói e não passa, e está sendo difícil esperar a dor passar. É uma justificativa muito simples e plausível para eu antecipar a minha morte se assim eu vier a decidir.

Domingo á noite, eu compus uma música de rock após mais de uma década, acho. Eu tenho um buraco na pele do meu dedão da mão direita por gostar das cordas de aço do meu violão, teimando não troca-las por cordas de náilon para a prática.

Tocar e cantar ao mesmo tempo é uma tarefa difícil, porém possível.


XOXO

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