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- O diabo hoje tá demais! Se alguém encontrar com ele, pode falar para ele dar uma maneirada, por favor?
- Aviso sim, claro! O que anda fazendo?
- O de sempre
- E o que é o de sempre?
- Pensando em coisas que não vão acontecer
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- Mais um encontro com o medo, mais um fim de semana de medo, é medo que você quer? Hoje já nem precisa mais pedir; só me resta saber o modus operantis, o quão fundo vão empurrar a estaca, já arrancaram uma das minhas convicções suicidas, não são pensamentos nem comportamentos mais, são convicções, visto que elas não vêm mais do desespero, mas da organização, eles, ficaram contentes, o inevitável aconteceu, a ratazana amanheceu morta após as tentativas do meu pai, eu não compactuei, coitada da ratazana... teve o destino antecipado apenas por ter comido a metade de uma manga que estava em cima da geladeira do quintal, sim, a ratazana era uma visita asquerosa, mas... também era uma vida que se foi...
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- Já trabalhei com bobina e já trabalhei com biboca, aceite trabalhar com bobina, mas nunca aceite trabalhar com biboca
- Esta semana o que aconteceu com esse firmamento pouco formal, nessas construções com fachadas pouco caprichadas, onde Vic Rail também mandou fechar todas as cantinas, consigo comparar o começo e o desfecho com o filme francês "Os Olhos Sem Rosto" (1959) de Georges Franju, no filme, um cirurgião plástico, tem um filha que possui uma condição de saúde rara que sofre uma deterioração progressiva na pele do rosto, e, para fazer uma cirurgia plástica de "transplante" de uma pele de rosto saudável, ele "sequestra" belas jovens, mas, depois das cirurgias bem-sucedidas, o rosto voltava a apodrecer dia após dia; eu, fui apodrecendo dia após dia, eles, parecem que sempre foram podres, e aqueles carros todos despedaçados por todos aqueles "estabelecimentos"? Eu estava lá porque aquela decadência espelhava a minha decadência? Que eu mesmo concordavam com aquilo? Se você aceita entrar no chiqueiro, você é porco, mas se os outros porcos identificam que você não é porco, eles te empurram para fora do chiqueiro, e é assim é que é, e é assim é que foi
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Sobre a Pam;
- Vamos falar sobre a Pam?
- Qual Pam?
- A Pamela Rosa
- Quem?
- Pamela Rosa, skatista brasileira, bicampeã mundial antes mesmo de o skate ser esporte olímpico
- Hum
- Porém na primeira prova olímpica em 2021, lá estava Pam, apresentada como número 1 do mundo, já contava mais de vinte anos de idade, mas tinha outra brasileira, uma menina de treze anos que, "todo mundo já sabia que ia ganhar medalha", e essa menina era a Rayssa Leal; a prova começou e a Pam conseguia fazer as manobras, mas não conseguia aterrisar de pé no skate, Rayssa caiu só uma vez e subiu no pódio; depois, Pam postou em suas redes uma foto do estado de seu pé, completamente roxo, ela sequer tinha condições de competir, será que o Brasil perdoou a Pam? A Pam foi demitida, a Rayssa está na empresa até hoje, e eu? O que acontecerá comigo? Com o meu pé que ficava cada dia mais roxo, e o crime que cometi de ir ao médico e me afastar por dois dias?
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- As cinco melhores jogadoras delas são melhores do que as nossas cinco melhores jogadoras, mas as nossas dez melhores jogadoras são melhores do que as dez melhores jogadoras delas, então vamos ganhar, o basquete é um jogo de dez jogadoras; no futuro não existirão mais atletas, as pessoas nascerão, crescerão e morrerão em frente ao computador, ganhando, viciadas em dinheiro
- Os sócios parecem figurões
- E o seu filho? Continua esfaqueando o próprio reto?
- Parei de investigar, sei que continua sujando chãos de banheiros de instituições de saúde com urina e esperma contaminado com HIV
- E as mulheres da limpeza que tem de limpar aquilo cuidadosamente se expondo? Cuidadosamente não se expondo? Mas e a falta de pele de quem se expõe? Mas e a margem translúcida pura de quem se expõe? E os vasos sanguíneos que se mostram? E a dificuldade em se esconder visto que tais vasos, e onde estão esses vasos, mostram tal sujeito, tal sujeito
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- Pisei em uma academia oito anos depois, nem eram os mesmos donos, não tem mais aulas de lutas, e também não tem gente, mas homens passando por mim e agindo agindo como se eu não existisse, ah sim, tinha muitos, homens que terminavam suas séries e tratavam de sair do lugar onde a professora me colocou;
- Aquele espírito obsessor? Aquela pão com ovo caipira que eu sustentei por quase um ano? Não foi ele que fez isso comigo, meu filho o que é esse sangue todo no seu nariz? Eu caí enquanto eu tentava montar em um porco
- O último banco, que de forma tão generosa me concedeu um cartão de crédito, não reaveu o investimento, dessa forma, vou ter que pedir para os meu pais o cartão deles para me matricular nessa academia; meu pai será contra, claro, não pode ver ninguém feliz que vai e estraga tudo, talvez a minha mãe, eu não consigo mais, nem lembro a data da última vez que chorei, embora ontem eu estava tristíssimo, agora eu não olho mais, os olhares de pena que os bonitos lançavam pra mim, eu apenas os olhava, e os respeitava, agora acabou, criança não sabe o que é ser suicida, agora eu sei muito bem, não olho para mais nenhum deles
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- É melhor que eu faça, nem que eu tire o dinheiro do meu rabo para pagar essa terapia boa e cara, antes que eu corte a minha própria garganta e ainda por cima correr o risco de contratar um terapeuta homofóbico que irá comemorar minha morte, e bom que seja da forma mais doentia possível, ou ele mesmo pode acabar queimado dentro de um carro
- Bom pra mim, não pra ele e seus projetos egoístas, afinal o que é a vida? 99% dela é perseguir sonhos e 1% dela é perceber que esses sonhos são impossíveis, e a perseguição desses sonhos é um caminho repleto de dor, desilusão, rejeição, exaustão, solidão, loucura, doença, raiva; ele me amarrou em cima do carro e demos um passeio por aí
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- A maldita cinco horas da tarde, que deveria ser a hora de sorrir, não é, as sete e meia da manhã de amanhã chega logo demais e o medo se renova; descendo a rua, um garoto belo, alto, esguio e jovem, me ultrapassou, só não pisou em mim pensando que eu era bosta porque conseguiu desviar a tempo;
- Um garoto branco, muito jovem, bonito demais, com cara de rico me pede um cigarro às 23h30 na avenida Paulista, me arrependi por não ter dado dois cigarros, por não ter perguntado se ele estava bem, se foi assaltado, se não estava conseguindo ir para casa, a primeira imagem é que eu não tinha segundas intenções, mas os chifres vermelhos já me tinham crescido, até parece... que ao passar o scanner naquele garoto ele iria querer algo com um velho como eu; ele tinha o quê? Vinte e dois no máximo? É nessa idade que se sonha, que é possível sonhar, eu quero, eu ainda quero sonhar, mas nas condições que eu reúno, no fundo eu sei que para mim não dá mais pra sonhar, aos vinte e dois, ao invés de trabalhar tantas formas viáveis de sonhar, eu estudava por conta própria, sem um centavo de financiamento parental, para entrar em uma faculdade pública nojenta, construída em cima de um terreno que originalmente abrigaria um presídio, em um curso de exatas quando nem eu mesmo sabia o quanto sou 100% humanas, um curso que me renderia trabalho para ser infeliz para o resto da vida, aos meus queridos vinte e dois, eu estava arrumando confusão atrás de confusão como um chester com pernas de ema, mas eu não sabia que em cada dia que eu ultrapassava aquela catraca, eu já estava errado sem dizer uma palavra sequer, aos meus queridos vinte e dois, eu estava acabando com os meus joelhos jogando voleibol naquela quadra de concreto, construída para a recreação de presidiários, aquela rede em péssimas condições, judiada pelo clima, a quadra sequer era coberta, aqueles postes tortos tendendo para o meio, até que vimos que os postes não eram tortos, os buracos é que foram mal feitos, é possível falar mil coisas ruins daquele quadrangulo, mas só dizer que é muito ruim é o suficiente, redundância+quadradância=quadradância
- Depois de bastante cansado de olhar para frente e para cima, e nunca receber um sim, eu aceitei que não havia moléculas naquele lugar, olhou pra mim ao me ver entrar, espiou quando me percebeu espiando, mas quando mostrei a mão e o gesto que fiz, chutou minha mão, saiu e esmurrou minha porta, tive que demonstrar uma masculinidade que eu não tinha para faze-lo ir embora
- Henrieth, uma garota plus size que passou por aquela quadra, disse que quando treinou voleibol na infância, a treinadora instruía as meninas para olhar sempre para a borda superior da rede, assim evitavam olhar para coisas que não queriam e de ser olhadas por olhares que queriam menos ainda, eu, que sou pequeno na altura e me apequeno ante a tudo que não tenho e que cobiço, me acostumei a andar sempre olhando para o solo, assim eu me defendo do tipo de olhar que os homens usam para me dizer que jamais olhariam para mim; a fila para a buseta estava grande, fui até o fim dela e percebi o garoto a dois postos à minha frente, alto, esguio, magro, bonito demais, vestia uma camiseta do Avenged Sevenfold, eu desconfiava que ele tinha uma curiosidade em mim, mas quem gosta de carne podre é abutre
xoxo

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