15 de ago. de 2026

-nº135/nº44-


 

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– A arte não é sobre glamour, a arte é sobre trabalho, trabalho duro, não é sobre sentar aqui nessa cadeirinha, é sobre vestir uma roupa rústica e amarela, carregar uma pequena caçamba amarela, e varrer e varrer uma rua por muito tempo, e varrer de novo debaixo de enchente, rajada de vento, e nunca parar de varrer; daí um belo dia, eu chego até o final da rua e vejo a rua limpíssima, daí passa uma mulher, com um vestido branco lindíssimo, com um sapato de salto belíssimo, eu vou até ela, a cutuco, e digo

– Está vendo essa rua limpíssima? Fui eu que varri!

Não! Não! Não é para ela, não é para os outros, é para mim! Antes de me perguntar se valeu a pena, tente me perguntar para quê? Para que me raspei tanto nesse esforço? Mesmo que eu tenha gostado de observar a rua tão limpa apenas por alguns minutos? É que mesmo assim ainda se morre, posso morrer amanhã ou daqui há poucos anos, as condições de vida podem piorar, e daquela rua ninguém vai mais lembrar, e meus olhos vão chorar

 

do I carry on?

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– No primeiro dia na minha casa nova, pedi para um dos moradores, um louro de mais de 1,90m para conversar; eu o interrompi no corredor e disse começando a começando com pausas quebradas, '"É...", "Ã...",

– Preciso falar com você

– Pode falar, aconteceu coisa?

– Não, é que, se você não se incomodar, eu queria te pedir para te dar o telefone da minha mãe, se você não se importar

– Claro

Ele tira o celular do bolso, e eu dou, falo o número e ele salva o número errado; ele dá um sorriso corporativo; enfia o celular no bolso; a vida como ela é, coisa nenhuma, a cozinha é pequena demais para nós dois, saí do banho e ele já estava atrás da porta como se já tivesse esperado três horas, todas as vezes em que nos cruzávamos, ele sempre olhava só para frente, talvez fosse modelo, e se olha pra frente nunca me nota, visto que tenho 1,75m, a minha inexistência servia para treinar a inexistência de todos os outros

O que temos aqui é a anticrônica; o garoto do sul, tarde naquele mesmo dia, assistia televisão enquanto bebia cerveja artesanal e conversava consigo mesmo

– Nem conheço essa mulher, como vou dar meu celular pra ela? Eu posso estar sendo o pior dos escrotos, mas eu não vou virar babá desse cara; mais alguns goles e ele pensa

– E se algo de algo mesmo acontecer? Vou me perdoar como?

No outro quarto, o filho da mamãe destilava ódio;

– Nem quis me dar o telefone dele, nem deve ter anotado o da minha mãe, eu sou um lixo mesmo! Ele deve ter nojo de mim, mesmo sem eu ter feito nada pra ele, só existir do jeito que eu existo, já é nojento; e assim, uma lágrima que teimava em não cair, desceu

– Desde então, o silêncio pairou naquela casa, o altíssimo garoto se arrependia cada vez mais, mas era tímido demais para consertar o que fez, Ygo, sentiria aquela lepra para todo o sempre; sendo assim, não haveria, nem nunca haverá avença

 

O pai: já faz mais de mês que não alugam aquele terceiro quarto

A mãe: seria tão bom que alguém entrasse com boa energia e todos passassem a se dar bem

O pai: ou então ficariam piores

A mãe: uma mulher seria tão bom naquela casa

O pai: e por que uma mulher?

A mãe: porque mulheres são mães, porque mulheres criam, porque mulheres harmonizam

O pai: mulheres também matam

 

 

– Tá, logo chega dois meses e você vai ter dinheiro, a mesma quantia para publicar o livro novo em Portugal, lhe parece muito mais tenra

– A vida que não é tenra, Eduardo

– Você tem tentando há anos reunir essa verba, teve vários empregos fixos para agora dar um coice? Não faz sentido, não é semântico, pode não tentar mais uma vez de novo?

– Tentar, tentar, tentar, tentar e morrer, é como a vida se comporta

– Pode ser fácil, mas quando chega a hora, muita gente desiste... não teve paciência

 

– Dois meses de empresa depois, Ygo se encontrou com o traficante para a entrega da encomenda, ele já o esperava de moto na frente do prédio da empresa; o vi todo galante em pé ao lado da moto sem a viseira, me deu um capacete

– Vai acertar agora?

– Sim, te passo agora

Ele olha para o celular e diz

– Preparado?

– Preparadíssimo!

Os dois chegam á uma região de mata, o traficante ensina Ygo o básico sobre como atirar com sua nova arma, diz ao colega

– Acho que já está bom, não preciso mais do que isso

– Tem certeza?

– Absoluta!

– Tá certo, se precisar de outra aula, só me chamar

– Tá certo, Emerson, muito o obrigado

 

Ygo, no caminho para casa não sabia ainda se estava feliz ou triste por estar vivendo o último dia de sua vida; é claro que tudo foi planejado para que estivesse feliz, mas daí um talvez ecoa, talvez algo bom está esperando por mim muito em breve, toda tentativa de suicídio dá medo, o problema é que dessa vez não vai falhar, dessa vez é fim da linha;

Ygo chega em casa, e lá está Bob na cozinha, Ygo passa por ele como se ele é que não existisse, larga a mochila no chão, se senta na cama, começa a tocar na arma, tocá-la como e fosse um objeto de desejo; Bob achou estranho que Ygo não foi tomar banho, Ygo havia pesquisado que a melhor forma de se suicidar com uma arma é dar um tiro no céu da boca, mas estava lhe faltando coragem para enfiar a arma na boca; Bob foi ao banheiro, que porta com porta com o quarto de Ygo, e foi na mesma hora em que Ygo conferia as balas e esse é um som característico do revólver, Bob foi e voltou ao banheiro rapidamente e a arma disparou; Bob entrou no quarto, viu Ygo recuperando a arma do chão

– O que aconteceu?

– Não foi nada! – disse ríspido

– Como nada? Você não pode ficar com uma arma disparando aqui!

– Cuida da sua vida!

– Me dá essa arma! – ele dava um passo à frente

– Sai daqui!

– Me dá essa arma! – ele dava outro passo à frente

– Sai daqui!

– Me dá essa arma! – ele dava outro passo à frente

A cada diálogo o tom aumentava, e quando Bob estava prestes a tomar-lhe a arma, Ygo atirou, no peito, três vezes; ao vê-lo cair no chão, na certeza de sua morte, ficou maravilhado, olhou para aquela bela cena e pensou “Eu quero ir para o mesmo lugar que ele”; não titubeou, inseriu a arma no céu da boca e atirou, sem hesitação

 

do I carry on?

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– Sim, eu definitivamente prefiro primeiro a diversão e depois a obrigação; minto, eu não gosto da obrigação, mas eu sucumbo à obrigação, por medo, por viver com muito medo do provável eterno refugo ao suicídio, e acabar na maior miséria; por isso hoje, mesmo acordando tão triste, mesmo porque existem coisas que me deixam tristes além do estudo, um estudo forçado, o que me enfastio, que me cansa já quando me sento para cansar, pelo menos inventaram a lógica, que é algo que gosto, resolvi às cinco questões diárias que homens confiáveis que mandaram, tenho certeza que acertei quatro, a quinta só chutei porque não me ensinaram aquela matérias, mas ainda posso acertar com o chute, e vou estudar mais logo de noite para acertar os noventa por cento que acho digno, já que as empresas privadas me veem como algo que chegam à assustar, ou talvez eu é que me assusto com a forma deles ao se apoucar, tal relação trabalhista não funciona assim, desse motivo, me emparedei à prestar um concurso público, o qual teste, provavelmente se dará neste novembro, eu não serei feliz depois que passar, não serei feliz depois que for empossado, mas não morrerei na maior miséria, por isso ontem à noite, o medo da miséria ia me mover a estudar com afinco, como se o medo já não movesse a minha vida

 

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– Sonhei, contando à minha mãe, mas contei; estávamos em um grande evento de dramaturgia, muitas, muitas pessoas famosas, não sei o que eu estava fazendo lá, minha mãe talvez, no principal local de confraternização, de troca, era um lugar bem grande e, pasmem, a maioria das pessoas se sentavam no chão; a coisa mais parecida que eu tinha visto com aquilo em arte foi na FLIP, estranhamente, algumas mulheres começaram a passar e olhar para mim, eu ainda era bonito, mas não para ser flertado daquele jeito, uma eu não sabia o nome, depois apareceu a Aline Midley, olhou misteriosamente ao passar por mim, mas era um olhar frágil, ela simplesmente se sentou, encostou no meu ombro e começou a chorar, não fiz nada, apenas a deixei ter aquele momento; peguei um livro, tinha imagem e textos, eu folheava o livro para ela ver, era um livro bem grande, em uma página eu comentei

– Essa página só tem imagens... espere... não, tem texto também – disse com o meu "defeito de voz"

Ela levantou e foi embora, mas eu já estava acostumado, para uma mulher eu não sirvo para nada, afinal, um homem gay não é um homem, é uma imitação de homem

 

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– A vida que eu conhecia acabou, a que estou vivendo agora eu não sei o que é

 

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– Eu ia dizer que meu relógio biológico voltou ao normal, e eu acordei às dez horas, mas me deu uma de Thom Yorque e quero/decidi rejeitar tudo que é fácil; assim, nasceu "Ok Computer"

 

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– O pior de perder o emprego, é perceber que você também não tem casa

 

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– Apaga a luz, desliga a televisão, assim a vida se esconde, fica menos pesada, vá calcular o peso da escada, o perímetro e a área, eu até me arrisco, vá se acostumando com a sombra, é assim que a vida "some dos seus olhos"

 

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– Tem gente que envelhece, tem gente que estraga; eu estraguei; a vida insiste em fechar portas para mim, então eu passei achar inútil continuar batendo nelas; se decidi parar de viver por que não tenho sonhos? Pelo contrário, eu tenho muitos sonhos, só que eu enfiei minha perna em uma estrada de barro e eu não consigo sair, e a cada dia que passa, mais eu acredito que nunca vou tirar minha perna daqui, pois o barro seca, né? Isso faz muito tempo, amor de mãe tem limite, amor de pai não existe, e estou aqui "invadindo" o espaço dele, filho aqui não tem casa, filho aqui é no máximo agregado; carrego um medo imenso, diagnosticado com TAG, mas de morrer eu não tenho medo

 

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– Quando aparece você, até terremoto dá vontade de ver

 

xoxo