21 de dez de 2013

SOMBRAS



“quando se é rico, é sempre natal” frase de fim de ano de hugo guimarães.

hoje vi um filme nacional chamado ‘cores’. filme em preto e branco, mesmo com esse título. talvez houve algumas partes coloridas. houve ou houveram, não sei. ainda não sei diferenciar 'houve' de 'houveram', ou quando usar 'houve' e 'houveram'. talvez por isso eu seja recusado mais uma vez no vestibular na universidade de são paulo, que acontecerá em muito breve. talvez o final do filme foi colorido, com os três ovos fritando. acho que as gemas estavam amarelas.

o filme, outra tentativa de pessoas ricas, cineastas ricos, em retratar a realidade da classe média baixa paulistana. mais um tiro pela culatra. a começar pelos atores que fazem os três ‘fodidos’ protagonistas: a garota é interpretada por uma atriz de ascendência romena, com um belo corpo. será que as barangas fodidas e pobres de são paulo são assim? não, não são. e os garotos? interpretados por atores muito belos, altos, com traços que beiram a perfeição. um ator se chama pietro e o outro, acauã, nomes típicos de burgueses. será que os meninos jovens pobres e fodidos de são paulo são assim? não, não são. os meninos pobres e fodidos da classe média baixa paulistana se parecem comigo: são anões, tem a testa imensa e o nariz torto.

outro tiro pela culatra: a protagonista trabalha como balconista em um pet shop e mora em um apartamento bonitinho com sacada em frente ao aeroporto de congonhas. será que uma balconista de um pet shop pode pagar por um lugar assim? não, não pode, senhores ricos cineastas. eu mesmo, que passei oito anos em uma faculdade que detestava, falo três línguas e trabalho em uma multinacional japonesa, só consigo pagar por um muquifo de 30 metros quadrados no meio da cracolândia. não há quarto, sala ou cozinha aqui. é tudo um ambiente só, um ambiente terrível: a instalação elétrica é precária, posso morrer queimado aqui se haver um curto-circuito, ou se houver um curto circuito; o encanamento também é precário. Esse lugar onde moro, parece um caixão de concreto.

dei de presente de natal ao filho de puta do proprietário do lugar onde moro um longo email que perguntava entre outras coisas “não deve mais haver pessoas para enganar e explorar na itália, não? por isso vocês vêm para cá nos explorar e nos enganar”

no final do ano há sempre de se fazer retrospectivas? sim, há, não? 2013 foi um ano estranho para mim. começou péssimo, com muito álcool, muita cocaína, outra tentativa de suicídio, três cirurgias decorrentes a essa tentativa, mas posso dizer que terminou bem: recuperei a boa saúde, consegui um novo emprego, parei de beber e parei com as drogas. após três anos, voltei a treinar voleibol e é tão difícil voltar a treinar qualquer coisa... treino duas vezes por semana e tenho dores no corpo inteirinho...

fiz dois filmes em 2013. dois curtas: um como protagonista e outro como coadjuvante. finalmente lancei meu livro de contos, que honestamente desconfiava que jamais seria publicado. precisa falar do sucesso? do resultado? parei para pensar sobre a diferença de 20 pessoas ou de 20.000 pessoas comprar o seu livro e reconhecer o seu talento. não há diferença, na verdade. 20 pessoas leram o meu livro e reconheceram o meu talento. é o suficiente, é injusto querer mais. será que mereço mais? não sei... talvez eu já tenha o meu talento e não preciso de mais, talvez eu esteja mesmo condenado á pobreza, a lutar contra a depressão e a insanidade, condenado a minha baixa estatura, a minha testa imensa e ao meu nariz torto. talvez eu deva aceitar isso, finalmente.

qual o melhor filme que viste esse ano? um francês chamado “mouton”, na mostra internacional de são paulo deste ano

o melhor de terror? até agora, o “the haunting” original de 1963. ainda tenho alguns dvd's que comprei para ver.

qual a melhor banda que conheceste esse ano? uma banda de bofes do kentucky chamada “slint”


 qual o melhor livro que leste esse ano? “memórias póstumas de brás cubas” de machado de assis. o final me fez chorar por uns três dias seguidos.

pensei em escrever um conto de natal, como fiz no ano passado. aquele conto que publiquei no ano passado se chama “ovos”, é sobre uma ceia de natal em família em que participo que dá bastante errado por eu jogar ovos em toda a família devido a minha deteriorada condição psicológica.

nesse ano pensei em criar um conto sobre uma ave de rapina treinada para roubar panetones, mas ando cansado, sabe? e acho que não sou bom em escrever coisas com humor. como diria o santiago: “vamos deixar a ideia para o ruffato aproveitar”.

no final das contas, do ano, o corretor ortográfico do microsoft word acaba me ensinado quando usar 'houve' e 'houveram'. no final das contas, creio que serei sim aceito pela universidade de são paulo dessa vez. no final das contas, creio sim que escreverei mais livros que serão lidos por mais que 20 pessoas.

“MEUS MELHORES ANOS AINDA ESTÃO POR VIR” (serena williams, 2007) serena estava certa em 2007. essa, é a minha frase de ano novo.


XOXO