8 de mai de 2015

SOB A LUZ QUE NÃO NOS ALCANÇA

leia texto da querida Micheliny Verunschk, escritora fodaaaa, para a orelha do meu romance "O tiro de um milhão de anos" a ser lançado este ano pelo selo pasavento da editora reformatório:

Sob a luz que não nos alcança

Há uma luz continuamente presente e tão ofuscante que traz consigo sua própria escuridão, uma luz circundante, mas que não nos alcança no comum dos dias, no rastro do cotidiano. Perceber essa luz é precisamente ser contemporâneo, algo raro, como nos diz Agamben, porque enxergá-la “é, antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capaz de não apenas manter fixo o olhar no escuro da época, mas também perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós”. É essa luz e esse escuro que a leitura de O tiro de um milhão de anos, romance de Hugo Guimarães, evoca .

À primeira vista, o mundo criado pela narrativa sugere uma paisagem para além do real, um daqueles mundos alternativos que surgem, com maestria, vez por outra, no cinema e na literatura, como a futurista Los Angeles, de Blade Runner, para citar apenas um exemplo. Entretanto, nos entreatos da leitura, o leitor vai percebendo, não sem algum horror: é deste mundo, é deste tempo no qual vivemos que parte a narrativa. Um mundo em decomposição, atravessado por severas perdas de sentido, por uma apartação desagregadora entre o ser humano e instâncias poderosas como a beleza, a natureza, o sonho.

Na travessia por São Paulo, essa megalópole que é uma mãe com colo de arame, mas ainda assim, uma mãe, a personagem Corvo, uma mulher de olhos azuis e alma despedaçada, oscila entre o voo e a queda, o amor e a repulsa pela figura materna, pela própria vida. Essa personagem principal, cuja agonia se desnuda ao leitor, é interessantíssima. E cabe aqui, ainda que brevemente, recuperar a mitologia do corvo, figura polêmica e ambígua que, como trickster, herói/vilão/trapaceiro, se situa no limiar entre dois mundos, o terreno, e o espiritual. Sobre o Corvo, Claude Lévi-Strauss comenta: “o pensamento indígena situa o Corvo no limiar entre duas eras (…). Já não se pode fazer qualquer coisa. O trickster descobre isso — muitas vezes ao custo da própria integridade”. E é essa a trajetória da personagem, atravessar limiares, estando ela mesma no limite: “Desisti de cometer suicídio ao pular na linha do trem desde que percebi que trens são lentos demais”, diz ela, nesse romance que tem, na sua experimentalidade, a possibilidade também de ser uma memorabilia ou, quem sabe, transformar-se numa carta de despedida, esse estranho gênero epistolar de que faz parte os últimos escritos dos suicidas.

Essas referências me sugerem uma atualização/apropriação poderosas das narrativas míticas. Os mitos, como se sabe, sempre serviram para explicar poeticamente um mundo que, aos humanos, parecia excessivo: barulhento demais com seus trovões, assustador demais em suas decomposições. Num estar contemporâneo fraturado por perdas absurdas, vícios severos de estar na moda, novas formas de morte (como os caixões de 50 metros quadrados vendidos pelas imobiliárias), Corvo, e a escritura de Hugo Guimarães, surgem como elementos capazes de transitar entre polaridades, atravessando os mundos, como um psicopompo num tempo em ruínas mas, ao mesmo tempo ensinando que “atirar-se de um prédio não é a única forma de um ser humano voar”. Ensinando como estar de olhos abertos para a luz absurda do que chamam “contemporaneidade”.



Micheliny Verunschk

XOXO

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