24 de dez. de 2012

OVOS

    De onde vem a palavra ‘ordem’? Da desordem? Uma dona de casa administrando-a como se ela fosse um quebra-cabeça, o pai punindo as peças.
    Ninguém: ‘Meu nome é ninguém’ vem com uma voz ao telefone que facilmente pode ser identificada como a de uma criança. Aqui, uma criança de onze anos que está tão psicologicamente exausta de algo que suporta com dificuldade. Prematuramente; hoje é noite de natal, e ela tem algo grandioso e sagaz para oferecer no show de talentos em que só ela se apresentará.
    Seu nome poderia ser qualquer um, de origem americana como muitos outros. Não importa se é uma garotinha branca ou negra, as mães não checam a origem dos nomes que oferecem aos filhos.
    Na verdade, dias atrás, ninguém falaria seu nome na sala de aula, ou falava bem alto; o máximo que os ouvidos podiam. Porque ela é gorda. Podíamos dizer que ela é feliz, mas ela ainda sim de fato, é feliz, é feliz porque é gorda, mesmo com o show de talentos que irá oferecer na ceia de natal.
    Hoje na aula, ela disse para si mesmo ‘ninguém’ igual a uma garota envergonhada. Uma garota envergonhada é o pequeno planeta tireoide que ela traz em seu esôfago. Um brinquedo pequeno que ela não pode quebrar em uma parede, mas ‘ninguém’ tinha planos, tinha planos. Vamos esperar e ver.
    Eu:
    Eu estou no primeiro andar. Minha casa tem dois deles. De andares. Desde que voltei do hospital de novo, eu não desço as escadas. Eu não posso escalar o teto. Eu só consigo levantar da cama e andar por esse quarto fedido.
    Mamãe sempre vem limpá-lo, para refrescá-lo, para abrir a janela mesmo que ela saiba o quanto eu sou uma pessoa escurecida. O quanto eu gostaria que aquela janela pudesse ser inativada, fechada, cimentada. Mas mamãe continua vindo, mas o quarto nunca consegue ficar totalmente limpo porque eu trago ovos para cá. Eu trago ovos para cima já que eu não consigo trazer tijolos para fechar a janela.
    Desde que voltei, papai tem me dado banho, me barbeado, mamãe me veste e minha irmã faz a maquiagem. Batom, lápis e pequenas maçãs desenhadas logo abaixo dos olhos, a maçã dos olhos, e ela me deu uma peruca longa a caracolada de presente de natal, mas deu antes da ceia, claro – essa não seria a ordem natural das coisas – Mas devemos nos lembrar que minha irmã está sempre tão ocupada cuidando da aparência, mais especificadamente dos seios. Mas devemos nos lembrar que mamãe pensa que acha que um homem sempre deve se vestir bem, sozinho...Papai me lavou e me barbeou. Mas devemos lembrar que eu jamais voltarei de um hospital por estar em pleno surto por me odiar tanto, por querer tanto explodir, por meu pai ter cortado meu cabelo por minha vida toda – Nesse exato momento, a cor dos meus cabelos é amarelo-gema.
    Papai: Ele foi preso de novo. Mas logo foi liberado para a ceia de natal, por sorte. Foi o que ele recebeu por construir sua última favela para algumas famílias perdedoras que sabem exatamente qual ajuda receber ou aceitar, papai usou recursos próprios de novo. Nossos recursos. Agora aqui esta ele: um homem querendo redenção. Ele já foi preso antes por construções péssimas. Ele conhecia as pessoas que estava ajudando? Não sabemos. Tudo o que sei é que vovó não deveria ter atravessado o oceano, de Portugal até este país mendigo, por meu pai ter nascido em um longínquo deserto sofrendo o que devia, tendo cicatrizes que nem posso imaginar o quanto ele está se sentindo bem nessa saga de redenção – pouco, muito cego para saber a importância de ter espancado minha cabeça até que eu enlouquecesse.
    Papai sacou uma caneta em um papel para aceitar a melhor televisão que o mundo fosse capaz de produzir. Assim, ninguém nessa imensa casa podia desenvolver qualquer pensamento, nenhuma filosofia podia ser contestada. Papai falhou.
    Papai não sabe quem é Catherine Ibarguen*, mesmo com sua TV gigante. Ele podia facilmente ver que eu tinha tudo para ser a próxima Catherine Ibarquen, mas isso não podia acontecer por ser algo extra terrestre. Ter um talento como aquele em casa? Jamais! Então, mamãe colocou as cadeiras da cozinha bem no meio do corredor, o fez com as cadeiras da sala de jantar também, papai construiu um arco que separa a sala de estar com a sala de jantar, mamãe também fez o mesmo com as cadeiras atrapalhando o máximo o corredor , onde eu não conseguiria praticar para ser a próxima Catherine Ibarguen. Mas eu treinava mesmo assim. Ele até mesmo me proibiu de usar o corredor do quintal com alegações fálicas. Uma delas era dizer que eu iria afundar o piso. O próximo tópico, o mais doente deles é que ele apenas esperou que eu me tornasse uma pessoa de vinte e sete anos que simplesmente não podia não podia bater Catherine Ibarguen. Ele esperou da forma mais obscura que podia uma coruja. Agora estou aqui nesse quarto, e minhas pernas não são fortes o bastante e somente, o suficiente para descer as escadas para a ceia de natal.
   
    A dona de casa é pior que ‘ninguém’. ‘Ninguém’ seria um nome bom demais para ela. O peru está no forno. O peru não poderia ser mais falso ou pior do que o mais tradicional poderia, contendo um dispositivo de plástico que avisa quando o peru está pronto. Mas o peru e a dona de casa são de plástico e você pode enchê-lo como um balão até morrer, porque deus sequer existe. Essa festa falsa é uma festa católica e você é budista, não é mamãe? Para quem está sendo feito o peru? Para ‘ninguém’ que nem mesmo conhece as abstrações das religiões, e só quer presentes e um peru para comer assistindo aos especiais da TV, como todas as outras crianças neste país onde as pessoas parecem e agem como perus com pernas, andando sem cabeça.
    O que será que ‘ninguém’ vai fazer na ceia de natal? Essa questão está deixando as pessoas um tanto intrigadas. Todas aquelas cabeças que ‘ninguém’ só pode enxergar olhando para cima. Não por ela ter só onze anos, mas porque a porra da tireoide apenas garante que ela vai crescer menos do que as outras. ‘Ei, o que ninguém vai fazer na ceia’?
    Dançar? Ela costumava gostar de balé. Cantar? Seria uma grata surpresa. Nadar? Não, ela escapou das aulas de natação e mamãe, a dona de casa é tão agressiva com ela e diz coisas horríveis quando ela não lava os pratos como ela quer, grita ainda mais alto quando ela deixa lápis esparramados no chão. Ameaça de agressão física quando encontra comida escondido em seu quarto, pois ela deve ter uma rígida dieta. ‘Se não seguir, irá morrer cedo’ e também ‘Você será com toda certeza a mais feia e a mais gorda garota’. Eu sinto revolta por ela, sinto-me mal por ela.
    Então, ‘ninguém’ começou a revanche. Ela começou a ser uma garota furiosa e começou a gritar de volta. Mas mamãe grita mais alto e nada funciona quando minha irmã vem nos visitar com seus seios novos. ‘Ninguém’ tem uma surpresa para hoje á noite, mas ela antecipa a surpresa e começa entrelaçar náilons no lustre.
    A tarde estava começando a cair. Todos os presentes pensaram que eu podia andar perfeitamente, mama achou, papai achou, ‘ninguém’ achou, mas eu tinha certeza e podia ficar com ela só para mim.     A primeira tia que chegou foi Clarice. Ela vinha tão feliz pelo corredor do quintal com seus braços gordos e flácidos ao me ver pela janela e disse ‘Oi, meu amor!’ e eu ‘tah!’ atirei um ovo no meio de seu rosto. Após isso, me retirei da janela.
   
    Antes de pensar na inquisição como punição, a dona de casa foi ajudar a tia Clarice com mil e meias desculpas, a secava. Ninguém só acompanhou a situação olhando para o lustre como um gavião, o quanto eles são três e grandes. Bem... O cheiro se dissiparia facilmente, a não ser que não trocasse de roupa. Foi o que ela fez, decidiu ir para casa trocar-se. Quando ela voltou e apareceu no corredor com cautela, ‘tah!’ eu a surpreendi com outro ovo.
    Tia Gersoni, a mais bêbada de todas, a mais feliz das tias, entrou no campo tão feliz dizendo ‘O que você ainda está fazendo aí encima?’ quando me viu pela janela, ‘tah!’ acertei um ovo em sua boca quando ela tentava terminar a frase. Tio Luís já estava no corredor, não podia voltar e ‘tah!’ arremessei um ovo em sua cara de bancário.
    Não teve jeito. Não havia solução para aquela fedida situação. Tia Clarice voltara para o carro com seu marido, primos. Em um carro atrás, outro cheio da nossa prole, tios, primos, mas tia Clarice guardou segredo do ocorrido e planejava voltar para a ceia.
    Clarice estacionando o carro não poderia nem mesmo imaginar que aquela situação proteinada, aconteceria de novo. Voltou com dois dos meus primos favoritos. Clarice entrou no corredor com um ponto de interrogação na face ao incliná-la ‘amor, não faça isso de novo’, eu a deixei dizer apenas meu nome. Nenhum deles escapara. ‘Tah!, Tah!, Tah!, Tah!’, Acertei todos eles sem vacilar.
    ‘Ninguém’ dessa vez não estava úmida entre as pernas de tanto rir, porque sabia que o melhor da festa estaria por vir. Enquanto mamãe, a dona de casa tentava ajudar o batalhão de porcalhões, ‘ninguém’ secretamente escalou a mesa, já seca com tantos frutos secos e amarrou mais alguns pedaços de náilon entre os lustres.
    Os seios chegaram na frente quando minha irmã chegou. Viu me pela janela e fez cara de desgosto e ‘tah!’ acertei um ovo bem no meio de seus seios esculpidos. Seu namorado novo, atrás dela tentou agachar, mas sem sucesso, ‘tah!’ acertei em sua cabeça quadrada.
    Muito bem, era noite e a festa deveria começar. Um incrível cheiro vomitável de ovo impregnou na família e nos convidados. Um cheiro que era limpo e limpo novamente, mas teimava em não dissipar-se. Todos os porcos convidados cheiravam o mesmo, e permaneceriam daquela forma até a meia noite. Não havia tempo para que tentassem um banho ou troca de roupa. Novos ovos viriam de minhas implacáveis mãos.
    Uma dúvida coletiva: Eu desceria as escadas para a ceia? Ou deveria ficar no quarto trancado com minha loucura cor de gema? Pois bem, vesti uma calça preta, uma blusa que podia ser um cardigã, e ao contrário da minha cabeça pintada de amarelo gema, coloquei uma longa peruca preta para disfarçar, também coloquei óculos de sol. Quando aquela figura desceu degrau por degrau estava um silencio emudecido. Um susto até.
    Mamãe, a dona de casa começou gritar ‘Nós deveríamos era te encher de ovos! Ovos! Ovos!’, mas um dos convidados a impediu, a acalmou, afinal eu era uma pessoa doente, eu era também muito sensível no momento. Mamãe queria me matar, eu sei. Gentilmente, tomei uma cadeira e algumas uvas para ver televisão. Todos me olhavam.
    Na cozinha, mamãe e duas tias, ambas gordas e retentoras de líquidos, estavam discutindo sobre o peru no forno; de que marca é? É grande? É muito pequeno? , mesmo assim todas trouxeram seus pratos de casa com comida complementar que deveria em algum embrulho mostrar o melhor mercado, a melhor padaria etc. Aquela comida toda duraria para sempre e isso não era ruim. Todas aquelas pessoas fedidas comeriam aquela comida para sempre.
    Dei a minha irmã um motivo melhor para ter seus seios notados. Ela tinha a pior expressão facial do universo e o namorado era o único ser vivo que ela conversava, e eles ficavam afastados dos demais em um canto da casa. Ninguém gosta deles. Os implantes de seios estavam lá dentro da pele dela dizendo ‘pffff... Como te odiamos’
    Meu primo gosta de mim ‘Jamais te comeria com essa peruca’ ele pensa; Fora o fato de que eu detesto ser penetrado no ceia de natal, mas ok, é um bom primo. Minha prima também gosta de mim, praticávamos esportes na infância juntos ás vezes e ela foi a única além de ‘ninguém’ que achou o ataque de ovos engraçado. Os homens ficavam bebendo cerveja, pensando em um jeito de me colocarem em uma clínica para sempre.
    Na cozinha, quando a discussão sobre o peru acabou, quando o próprio peru terminou de assar, a maioria das pessoas foi consumida pela mais variada comilança suficiente por pessoa, o equivalente a um quarto do peru, para se evidenciar que o mesmo estava seco.
    ‘Cada um em seu lugar, por favor’ disse a mamãe, a dona de casa. Nós lá, sentados e minha irmã disse com amargura:
    – O número da Caroline, mamãe.
    ‘Oh Caroline’! Disse os tios, ‘Oh Caroline’ disse os primos, ‘Oh Caroline’ eu disse com minhas últimas forças. Caroline, sim, isso é o mesmo que ‘ninguém’ - Ela rapidamente subiu na mesa, ao som do ‘Ei, ei!’ do papai, com o ‘Ei, ei !’ da mamãe, Caroline rapidamente enfiou seu pescoço entre os náilons estrategicamente e saltou com os joelhos flexionados, enforcando-se. Ela o fez depois de mamãe, a dona de casa dizer ‘ Ei’ e antes de o papai dizer ‘A mesa é de vidro...’
*Catherine Ibarguen: Atleta Colombiana, recordista sul Americana do salto triplo.

8 de nov. de 2012

CINEMA-SONHO



logo soube do que se referiam a derivação imprópria 'cinema-sonho' ao definir os filmes do tarkovski que passariam na 36ª mostra internacional de cinema de são paulo. ou seja, são aqueles filmes que você sonha em ver, mas não consegue devido a salas lotadas ou cópias em mal estado. ficas só 'no sonho' mesmo. logo, o tal cinema-sonho do tarkovski é uma derivação imprópria assim como 'colméia-monstro' ou 'homem-rã'.

costumo ver duas dezenas de filmes na mostra. dessa vez não cheguei nem perto disso. tanto que NÃO será possível fazer um top 10, mas só um mísero top 5:

01. O Gebo e a Sombra (Portugal, 2012) Dir: Manoel de Oliveira.
devo dizer que esse é o que menos gostei do Manoel, (vi o estranho caso de angélica, sempre bela, e singularidades de uma rapariga loura) alguns diálogos ficaram até repetitivos e o filme acabou ficando meio chato, maaaas é um autêntico Manoel de Oliveira, o melhor que vi da mostra.

02. La Demora (Uruguai, 2011) Dir: Rodrigo Plá.
fora a piadinha sem graça da garota da bilheteria do shopping santa cruz, ela disse 'lá demora, viu...' o filme não se demorou. narrativa ágil, história interessante e um final irônico e falso. quatro estrelas para ele.

03. A Colônia (Ucrânia, 2001) Dir: Sergei Losnitsa
com muito custo consegui conhecer o mundo cinematográfico do Sergei. acho muito charmoso filmar em preto e branco nos dias de hoje. além disso, é incrível embarcar nos olhos dele e enxergar qualquer mundo ou situação. aqui, ele nos leva para uma colônia de doentes mentais idosos.

04. Salsipuedes (Argentina,2012) Dir: Mariano Luque.
este é um exemplar de filme de arte aqui da argentina. nós temos as árvores, nós temos o sol, nós temos a gasolina, nós temos a beleza, nós temos as barracas e nós temos a água. mas NADA disso é o bastante, e salsipuedes mostra uma família argentina bastante mal criada, que não consegue de forma ALGUMA aproveitar o final de semana. e realmente, o final de semana foi uma droga.

05. Lawrence Anyways (Canadá, 2012) Dir: Xavier Dolan.
tivemos alguns filmes de transexuais na mostra desse ano. este foi o mais bonitinho. estou acostumado com o cinema canadense colorido, mas meio político também. este é um filmão mainstream de 160 minutos que se parece mais com coisas como 'brokeback mountain'. maaaas devido a escassez de coisas boas, devo colocá-lo na minha lista. Embora seja muito longo e a história não tão interessante, o filme tem algumas imagens lindas, realmente inspiradoras. 

sonho que no ano que vem, não haja TANTAS sessões esgotadas e que as cópias sejam verificadas com uma antecedência adequada. 

cinema-sonho.


15 de out. de 2012

TAPETE DE MAÇÃS

 
formidável, ou FORMIGÁVEL, ir ao curso e dar com a cara na porta SÓ porque é dia dos professores. eles deveriam DAR aulas nesse dia e receber presentes, maçãs, sei lá. ou muitas maçãs, maçãs suficientes para confeccionar um tapete de maçãs para cada um deles.
 
tapete de maçãs também é um evento, uma manifestação clássica que aconteceu no final da década passada á favor da cantora fiona apple. tudo porque a gravadora tinha achado seu novo disco 'extraordinary machine' pouco comercial e dificultava o seu lançamento. os fãs de fiona então, estenderam um tapete de maçãs em frente a gradavora e o extraordinário 'extraordinary machine' foi lançado. apple = maçã.
 
não cito isso á toa. fiquei sabendo há poucos dias que fiona apple virá ao brasil no mês que vem para três apresentações e fiona é um dos poucos artistas que me fariam sair de casa, ficar em pé, conseguir enxergar apenas o cotovelo e a testa do artista (minha gata vomitou de novo), e TALVEZ ter o que mereço. mas irei, e recomendo que vão.
 
(ela vomitou na minha cama de novo). não, eu não morri. sei que estou há meses sem postar e sei que falava muito sobre a morte, mas não perdi a vida e nem qualquer coisa que me impedisse de escrever como dedos, mão, visão, etc.
 
eu estava me dedicando a alguns projetos de literatura, por incrível que pareça. o meu próximo livro, é um livro de contos e se chama 'o estranho mundo de hugo guimarães'. já tem editora, mas ainda não posso dizer qual é, e também ainda não sei a data de lançamento.
isso é bom.
bom, pois eu já não acreditava tanto na publicação dele, visto que perdi o prêmio sesc de literatura mais uma vez e não conseguia enxergar caminhos alternativos para a publicação deste incomum livro.
 
eu também estava construindo um projeto que está concorrendo a uma bolsa da funarte e vai concorrer a bolsa da petrobrás, ambos para criação literária. terminei o projeto da petrobrás ontem e a inscrição vai até o final deste mês. se acredito que posso ganhar? não, claro. mas há um fio bem fino e bem pequeno de esperança que é o mesmo fio que me impediu até hoje, que eu me suicidasse. simples.
 
desde que parei de tomar clorpromazina regularmente e estou sem nenhum anti psicótico, coincidentemente tenho feito um questionamento a mim mesmo que nunca tinha feito de uma forma tão objetiva: por quê não podemos antecipar algo que irremediavelmente irá acontecer?
talvez seja só coincidência.
 
fora isso, nada aconteceu de especial na minha medíocre vida de escritor contemporâneo brasileiro, que se resume em tentar escrever, tentar publicar, tentar existir, tentar comer, e se dedicar a um emprego absurdo das nove ás seis da tarde.
 
nada, mas 'filme para poeta cego', um curta metragem sobre o glauco mattoso feito pelo querido gustavo vinagre. ele foi filmado no ano passado, e eu fiz uma pequena participação. o lançamento aconteceu no festival internacional de curtas de são paulo deste ano e fiquei contentezinho com a minha participação. é possível que eu volte a trabalhar com o gustavo, mas até agora só há especulações.
 
vou ver se consigo levar a minha gata ao veterinário, ao doutor, ao ginecologista, ao CACETE, antes do final desta semana, pois sexta feira começa a 36ª mostra internacional de cinema de são paulo e este é um evento SAGRADO para mim, quando assisto dezenas de filmes em uma maratona de duas semanas.
 
prometo postar com mais frequência a partir dessa data e logo postarei sobre a mostra dando minhas considerações, opiniões e sugestões.
 
meu namorado é um príncipe encantado e eu sou um sapo incapaz de compreender que ele merece uma vida social normal. caso você esteja lendo, prometo que vou tentar ser mais razoável.
 
ah! é finalmente saiu no brasil em dvd o 'deixa ela entrar' original, o sueco, em uma edição toda bonitinha da livraria cultura. vou assistir os quinze minutos finais agora.
 
XOXO.

29 de mai. de 2012

AZEITONAS PARA HUGO GUIMARÃES


ao decidir que sou um rei
eu fui á uma loja pobre comprar uma coroa

eu poderia facilmente desistir da minha vida toda
agora que ela simplesmente cabe na coroa

eu não falo uma palavra sequer agora
eu apenas como pão e uso a coroa

ao comprar a minha própria morte
vi que ela também cabia na coroa.

onze de abril
eu já estou no futuro, mas
eu esperei tão ansiosamente por um container cheio de azeitonas para o meu aniversário
que senti minha cabeça imersa do rio pinheiros
enquanto eu temia um improvável mergulho do container.

agora eu trabalho
sim, primos, um psicopata pode trabalhar
por um simples motivo:
eu não sou um psicopata.

agora eu trabalho
há um monstro na minha janela todos os dias:
a universidade de são paulo
onde eu vou entregar as azeitonas
onde eu vou entregar minha coroa.

hugo guimarães.


19 de abr. de 2012

ELEGIA 18 DE ABRIL DE 2012

eu tenho dor de estomago por causa do refluxo. tenho vomitado há uns pares de dias por causa do refluxo. o que refluxo? é algo que o hermes rossi dizia sobre. no final, o refluxo é que algo que supostamente lhe fará vomitar. e hermes rossi é professor da aduaneiras hoje, e eu sou um vomitão.

eu tenho uma infecção nos dois ouvidos, uma infecção na pele dos ouvidos, a mesma que fazia minha finada avó enfiar grampos nos ouvidos e isso ocasionava feridas bem feias. eu não uso extratores de grampos nem garfos de batereira para coçar os ouvidos, uso os dedos, mas tenho preguiça de voltar ao médico. eu não pingo o remédio.

o dia começou a me dourar, me deixou bem douradinho como meu namorado lindo disse que as batatinhas deveriam ficar e dourou-me o dia. fiquei pensando em chorar com sexo anal e frango assado muito molhado. cheguei a boa conclusão de que uma boa discussão sobre conduta sexual se faz com silêncio.
e frango assado molhado? estou louco para lamber a pele da coxa dele por dentro.

2 de abr. de 2012

TIME DE BASQUETE DO CÉU

time de basquete de almas
um quinto de um time de cinco
é a sua importância
o seu movimento brilhante
o meu movimento brilhante
é mera importancia
em cinco
meço um metro e noventa e quatro
encima de um tênis quarenta e quatro
desamarro meu cabelo
encima de uma caixa de música
porque sou uma garota
de um metro e noventa e quatro
encima de um tênis quarenta e quatro
nunca vou ter a minha plena importância
porque há mais quatro
quatro garotas em um time de basquete

descalça
vou me jogar do vigésimo terceiro andar
antes disso, vou lamber seu cinzeiro
para dizer que te amo
vou descer do vigésimo terceiro andar
de elevador.

7 de mar. de 2012

EX SEMANAS

09 de janeiro montag (dia do astronauta)
em homenagem ao dia do astronauta, vou passar o dia no mundo da lua

10 de janeiro dienstag
hoje estou de volta ao mundo dos mortos

11 de janeiro mittwoch (dia do controle da poluição por agrotóxicos)
infelizmente não há nada que eu possa fazer sobre isso

12 de janeiro donnerstag (dia do empresário da contabilidade)
todos os empresários de contabilidade, sem exceção, tem mal hálito. tive a ligeira sensação de ser demitido devido a roubo de manual, audição de uma sinfonia no trabalho, atrasos e zoação da folha de aniversariantes do mês, além de brincadeiras no blog pessoal.

13 de janeiro freitag
hoje é sexta feira treze, dia de ver zé do caixão no cinema com o meu benzinho.

14 de janeiro samstag (dia do treinador de futebol e dia nacional do enfermo)
para homenagear esse dia, vou quebrar a perna jogando futebol para ajudar a lotar o hospital mais próximo.

16 de janeiro montag (dia do cortador de cana de açúcar)
em homenagem ao cortador de cana, vou assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. também vou tomar todos os cafés do dia com açúcar, dispensando o adoçante.

17 de janeiro dienstag
em homenagem aos tribunais de contas, fodi com as minhas contas comprando um tênis novo

18 de janeiro (dia internacional do riso)
exatamente no dia internacional do riso, vou refletir o quanto sou idiota

19 de janeiro donnerstag
hoje o dia esta nublado, meu remédio novo me faz ir á lua. se meu benzinho não me atender, terei de cortar os pulsos.

esse mês de janeiro nojento acabou e eu odeio firmemente o trabalho em empresas. empresa: lugar onde se passa oito horas em frente a um computador com atividades ou não, onde pessoas totalmente diferentes são obrigadas a conviver umas com as outras. o almoço é péssimo, é impossível desenvolver qualquer assunto razoável.

todos os meus trabalhos foram no quinto andar. é insuficiente se jogar lá de cima e morrer com certeza.

PS: fiquei um tempo sem postar porque minha depressão estava me matando

XOXO